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No Paraná, 17% dos mortos por Covid-19 tinham diabetes e 6,4% obesidade. Saiba como se cuidar

(Foto: Divulgação)

Desde o início da pandemia, especialistas relacionaram a obesidade e o diabetes como fatores de risco para a Covid-19. Eles estão diretamente ligados com a evolução da doença e aumentam as chances de quadros mais graves.

Conforme dados do boletim da Covid-19 divulgado pela Secretaria de Saúde do Paraná no 23 de junho, o estado acumula 510 mortes causadas pela doença. Este mesmo boletim traz um perfil das comorbidades nos óbitos por Covid-19 no Paraná, considerando o número de parcial de 350 mortes, referente ao dado disponível nos sistemas nesta data sobre a presença de doenças pré-existentes nos pacientes.

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Deste total de 350 mortes, em 63% delas havia o registro de comorbidades nos pacientes. A principal delas é a hipertensão arterial sistêmica (86 mortes, o que representa 25% do total). Na segunda posição está o diabetes mellitus, que estava presente em 59 casos (17% do total). As equipes de saúde constataram obesidade em 22 pacientes que morreram por Covid-19 (6,4% do total).

A médica endocrinologista Maria Augusta Karas Zella, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia – Regional Paraná, explica que o diabetes altera a imunidade e gera uma maior propensão à infecção, de um modo geral. Este contexto se junta às características da própria Covid-19, que afeta o metabolismo da glicose, entre outros efeitos. “O coronavírus tem uma penetrância no metabolismo do açúcar. A Covid-19 está relacionada ao aparecimento de diabetes até mesmo em quem não tinha diabetes, alterando glicemia em jejum. Quando vamos observar o quadro de diabetes nessa população, esses pacientes não tinham histórico de diabetes. Sem ser diabético, a Covid-19 já piora no metabolismo; o quadro em um paciente com diabetes leva à descompensação da doença”, explica.

Por isto, pacientes com diabetes podem ter uma evolução a um quadro mais grave da Covid-19, especialmente se não estiverem com a doença previamente controlada. De acordo com a médica, um trabalho publicado na França, a partir de dados de 53 hospitais daquele país, mostrou que um a cada 10 diabéticos que internam por Covid-19 morreu após uma semana de internamento e 20% dos pacientes diabéticos necessitou de ventilador nesse mesmo período. O levantamento reuniu as informações de 1,3 mil diabéticos, a maioria com o tipo 2 da doença.

“Isto mostrou que esses pacientes, com complicações crônicas e um Índice de Massa Corpórea (IMC) mais alto, tiveram um maior risco de morte. Quanto mais idoso e diabético, piorava a chance de morte. E também relacionaram outros fatores, como apneia do sono nesta população, o que aumentava a chance de mortalidade. Isso veio alertar ainda mais que esta parcela da população realmente é de risco”, comentou Maria Augusta.

A médica endocrinologista Silmara Leite, membro da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia, doutora em Ciências Médicas e Biológicas pela Universidade Federal de São Paulo e diretora clínica da Cline Research Center, faz uma ressalva importante: o diabetes, por si só, não é fator de risco de contágio do novo coronavírus. A mesma afirmação se aplica à obesidade: uma pessoa obesa não tem mais chances de ser infectada pelo novo coronavírus apenas devido à esta condição. A probabilidade é a mesma do que a população em geral.

Obesidade e diabetes são fatores de risco para a Covid-19 porque aumentam as possibilidades de complicações na evolução da doença. “A obesidade e o diabetes aumentam o estado inflamatório dentro do corpo. A obesidade gera uma maior resistência à insulina e um estado inflamatório maior. E o que acontece com o corpo, com a Covid-19, é uma tempestade inflamatória”, alerta. “Juntando esses fatores, existe um maior risco de evolução para uma situação mais grave”, esclarece.

A médica endocrinologista Maria Augusta Karas Zella ainda aponta que a obesidade afeta uma parcela significativa da população brasileira: cerca de 20%, conforme dados da pesquisa de Vigilância de Fatores de Risco e Proteção para Doenças Crônicas por Inquérito Telefônico (Vigitel) de 2018. E pelo menos metade dos brasileiros estavam com excesso de peso, segundo o mesmo levantamento.

Tanto Maria Augusta quanto Silmara reforçam a necessidade da manutenção dos níveis de glicemia controlados, pois obesidade e diabetes são fatores de risco para a Covid-19. O controle pode fazer diferença no caso de contaminação pelo novo coronavírus.

“E não basta controlar a alimentação, mas também a medicação e a insulina. Pacientes estavam em outubro ou novembro do ano passado com a hemoglobina glicada (índice que permite o acompanhamento da glicemia por um período mais longo) próxima de 7 e agora, reavaliando, estão com 9,5. São pessoas com a mesma medicação, a mesma insulina, mas que apresentaram uma piora importante. Estamos reforçando a importância de as pessoas procurarem seus médicos. Fique em casa, mas saia para buscar sua saúde, para ir ao médico”, salienta Silmara, lembrando que o diabetes é uma doença dinâmica, que não pode ser administrada com a mesma medicação por um longo período.

“Precisamos ter noção que a Covid-19 representa um risco para as pessoas que convivem com doenças crônicas, com doenças pré-existentes, com piora da resposta imune. Não temos anticorpo contra o vírus. Temos muitas pessoas precisando dos hospitais, o que pode gerar um colapso. Muito cuidado para não parar o tratamento: isso pode ter impacto e sobrecarregar ainda mais o sistema. Além possibilidade de um desfecho pior, temos a sobrecarga de saúde pelos internamentos por doença crônica também”, avisa Maria Augusta.

Controle

Cuidar da alimentação não deve ser recomendação apenas para diabéticos e obesos: a população em geral também deve observar este item, pois a médica Maria Augusta revelou que a Covid-19 pode descompensar o metabolismo da glicemia mesmo entre aqueles que não têm histórico de diabetes. Se os níveis já estiverem “fora dos eixos”, podem ser fatores revelantes na condição do paciente.

“Um bom controle glicêmico ajuda bastante, com uma boa alimentação e atividade física. Mexa-se em casa mesmo, com a ajuda de aplicativos, por exemplo. O importante é se manter mais ativo e não ficar fora dos horários. Tentar, mesmo na pandemia, ter horário para acordar e se alimentar. Isso também altera o metabolismo. Precisamos ter o sono adequado, além de controlar o peso”, aconselha Maria Augusta. 

A endocrinologista Silmara Leite esclarece que é importante reduzir o consumo de gorduras e frituras, que potencializam o processo inflamatório do corpo. Os cuidados também devem ser redobrados com o consumo de frutas: elas podem parecer 100% saudáveis, mas o excesso de frutose, por meio do consumo de frutas, suco de frutas e outras bebidas, aumenta o processo inflamatório dentro do organismo. A médica orienta uma dieta rica em fibras, por exemplo. “O último congresso da Associação Americana de Diabetes mostrou que o ideal é seguir a chamada dieta do Mediterrâneo, que mostra uma redução do processo inflamatório”, comenta.

E, para tentar amenizar os efeitos da obesidade e diabetes como fatores de risco para a Covid-19, cuidar da saúde mental se torna essencial neste momento. “Tem um quadro de influência da saúde mental também. Não é apenas a alimentação a ser observada. O estresse, a ansiedade, a depressão e a falta do sono aumentam o hormônio cortisol, que é anti-insulínico, impactando na resistência à insulina e piorando a sua condição glicêmica, mesmo que esteja fazendo um maior esforço, que não esteja abusando na dieta. Algumas pessoas dizem que estão cuidando da alimentação. Mas, por outro lado, pelo ponto de vista emocional, difícil quem não esteja sendo afetado nesse momento”, considera Silmara.

Por isto, a endocrinologista Maria Augusta Karas Zella ensina: todos devem separar momentos para ouvir mais música e assistir a um filme interessante, tentando não ficar apenas na frente de uma tela, seja ela do computador, do celular ou da televisão.

Com Saúde Debate

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