Política Entrevista ao O Presente

“A maioria dos políticos procura tirar proveito dessa pandemia”

Ex-prefeito Ilmar Priesnitz: “Presidente tem que ter conduta de presidente. Se fazer respeitar, não pelo grito ou pela ameaça, mas, sim, pela competência. Populismo não resolve o problema. Pelo contrário, é perigoso” (Foto: Joni Lang/OP)

A pandemia do novo coronavírus acirrou os ânimos da classe política e hoje os desentendimentos, que deveriam dar espaço às soluções, estão cada vez mais evidentes. “Hoje é só briga, jogo de interesse. Nós vamos sentir o resultado de um gasto extraordinário de dinheiro que vai ser pago e a pandemia não dependia de tanto dinheiro para comprar sem obedecer o sistema de licitação”, opina o ex-vereador (1982 a 1985) e ex-prefeito de Marechal Cândido Rondon (1986 a 1988), professor aposentado Ilmar Priesnitz.

Em entrevista ao O Presente, Priesnitz faz uma análise do atual cenário político e econômico nacional, lamenta a politicagem ocorrida nesse período e aponta os estragos que ela causa na democracia. Ele também fala sobre o governo federal e opina sobre a postura polêmica do presidente Bolsonaro, bem como aponta lições que podem ser tiradas dessa fase inédita vivida pelo mundo. Priesnitz foi prefeito do município pelo MDB e por muitos anos esteve filiado no PDT. Atualmente integra as fileiras do Podemos, dos senadores Alvaro Dias e Oriovisto Guimarães.

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O Presente (OP): O senhor, que já foi prefeito de Marechal Rondon e é uma pessoa que acompanha o cenário político, enxerga de que forma a polarização vista atualmente no Brasil? Isso é importante à democracia?

Ilmar Priesnitz (IP): Não. Eu acho que a democracia depende fundamentalmente da preparação das pessoas. A pessoa saber quem ela é, o meio onde vive, quem são as pessoas que convivem com ela, que tipo de relacionamento essa pessoa mantém, a própria atividade dela dependendo da profissão que exerce. A democracia preza exatamente o direito, a possibilidade de o indivíduo se sentir à vontade, se sentir livre. Não para cometer coisas erradas que beneficiem este ou aquele indivíduo, mas, sim, que beneficiem a sociedade como um todo. Dentro de qualquer sociedade sempre vai haver uma ou outra pessoa com determinada liderança e que divide com os demais membros daquela comunidade; o povo decide. Com o advento de vários partidos políticos começa o grande problema do Brasil que é a descaracterização de uma política com planejamento. Na área política de um canto se fala de um jeito e de outro se fala diferente, então, ao invés de trazer crescimento harmonioso, é fator de divisão de força. Por isso, penso que atualmente o Brasil passa por uma dificuldade muito grande, porque as pessoas que têm uma ideologia liberal, mas com organização, sabem que o direito de uma é o mesmo da outra e por isso existe uma Constituição. Mas a injustiça é que a história acaba não sendo transcrita de forma autêntica.

 

OP: O fanatismo daqueles que defendem grupo A e grupo B está cada vez mais evidente no país e isso tem provocado uma intolerância muito grande entre as pessoas. Insultos e falta de respeito com a opinião do outro têm se tornado comuns principalmente nas redes sociais. Aonde vamos chegar com tudo isso? Como mudar?

(IP): Quando comecei a lecionar em Marechal Rondon ouvi de um político que eu simpatizava e até hoje acho que foi um dos maiores governadores que o Paraná teve, o José Richa: “o povo, o país que conseguir ter o privilégio de dominar a comunicação, esse tem tudo para dominar o mundo”. Eu nunca esqueço, porque evoluiu rádio, televisão, as coisas foram acontecendo, só que lamentavelmente aquilo que se previa como um instrumento de progresso surge e começa a trazer confusão. Hoje as mídias sociais fazem um líder de uma hora para outra porque os canais de maior audiência operam e defendem grupos econômicos com os interesses deles. O menor, bem-intencionado, bem equilibrado tem dificuldade de chegar na maioria. Aí alguém inteligente para os interesses próprios acaba aprontando um esquema de comunicação via internet e se promove. Começam a aparecer os fakes e aparecem prejuízos para pessoas de bem, enquanto pessoas com intenção maliciosa, mas que sabem dominar esse meio de comunicação, acabam se projetando. Então, como continuar convivendo com isso? O povo bem-intencionado vai para a televisão ou vê na internet e fica confuso, porque aquilo que surgiu para ser um instrumento para facilitar a vida da comunidade, melhorar os meios de comunicação e da própria cultura em si, acaba sendo um instrumento para os mal-intencionados. Este é o perigo.

 

OP: O senhor acredita ser possível um amadurecimento político em pouco tempo? Ou ainda vamos demorar anos para alcançar um debate mais saudável no meio político?

(IP): Acredito que vai demorar, e isso passa pela educação. A educação é controlada por um ministério, que tem a obrigação de acompanhar aquilo que é interessante para o aluno, não para o governo, para que venhamos a criar eleitores e uma população mais esclarecida em relação aos seus direitos e deveres. Hoje a maioria das pessoas não gosta de política, não gosta de eleição e acha que votar é coisa obrigatória. Lamentavelmente parece que tudo é proibido e se procura muitas vezes pessoas que são totalmente avessas à democracia. Muitas vezes esses vão controlar a educação.

 

OP: Diante do cenário atual, comparado com os tempos em que o senhor esteve envolvido em campanhas eleitorais, é possível dizer que é mais complicado participar da política atualmente do que no passado? Os desafios são maiores?

(IP): Na verdade, hoje uma eleição é uma verdadeira oportunidade de muitos mostrarem o que não deve ser usado na política, quando deveriam criar meios de trazer o progresso. Se desconstrói um mandato na mão ao invés de preparar o futuro, a área da educação, a área da saúde, a economia, a orientação técnica; preparar nosso jovem de forma efetiva para estar pronto quando chegar a ter que tomar decisões.

 

OP: Qual avaliação o senhor faz do governo Bolsonaro até aqui? O que esperar daqui para frente?

(IP): Votei no Bolsonaro no primeiro e no segundo turno, porque tínhamos o perigo de, de repente, ver que não mudaria nada se ele não entrasse. Queira ou não, pelo menos satisfez a grande maioria da população brasileira. Acompanho a política nacional e sei da convivência dele no Congresso, na Câmara Federal. É um homem polêmico, de pouco entrosamento com os companheiros, mas botava sua visão em prática sem receio de expor o pensamento. Em relação ao que se espera, vejo que, além de todas as trapalhadas que aconteceram, tem um problema grave que a maioria dos políticos procura tirar proveito dessa pandemia. Não se admite em hipótese alguma que até o Supremo Tribunal de Justiça entre na questão para dizer que isso é atribuição de fulano. Onde está a Constituição? Todo mundo, mas principalmente quem vai exercer um cargo público deve conhecer na íntegra os principais ditames da nossa Constituição. Hoje é só briga, jogo de interesse. Nós vamos sentir o resultado de um gasto extraordinário de dinheiro que vai ser pago e a pandemia não dependia de tanto dinheiro para comprar sem obedecer o sistema de licitação.

 

Ilmar Priesnitz: “Hoje uma eleição é uma verdadeira oportunidade de muitos mostrarem o que não deve ser usado na política, quando deveriam criar meios de trazer o progresso” (Foto: Joni Lang/OP)

 

OP: Como analisa a postura do presidente, que constantemente tem se envolvido em polêmicas ao participar de atos e movimentos que estão sendo muito questionados, além das declarações e ações envolvendo a pandemia de coronavírus?

(IP): Penso que foi vulgarizado demais um problema. Imediatamente o governador de São Paulo (João Doria) estabeleceu um comando de informações e de ações para resolver o problema dentro do Estado dele. Quem não vê a intenção desse governador que se elegeu prefeito, exerceu dois anos e pulou para o governo e já vislumbra a presidência da República? Qual grupo ele representa? Se analisar bem, tudo isso não seria necessário desde que tivesse uma ação planejada e conjunta comprometendo todos, desde vereadores, prefeitos a presidente da República. É uma conduta (do Bolsonaro) que não merece aplauso sob hipótese alguma. A participação dele em todos os eventos sempre deixou motivo para crítica. Ele sabe que não é absoluto no Brasil e tem os seguidores, contudo a grande maioria dos eleitores votaram nele pela mudança, para que houvesse outra determinação administrativa e que em definitivo se julgasse e colocasse na cadeia todos que mancharam a história, a economia e a educação do Brasil. Presidente tem que ter conduta de presidente. Se fazer respeitar, não pelo grito ou pela ameaça, mas, sim, pela competência. Populismo não resolve o problema. Pelo contrário, é perigoso. É preferível uma pessoa um pouco mais dura, mas consciente e ligada com o povo.

 

OP: Como avalia os vários pedidos de impeachment do presidente Bolsonaro? É algo somente para impulsionar a crise política, oportunismo político ou realmente é algo a ser considerado, cabível?

(IP): Veja bem, uma reunião de ministros com a presença do presidente acaba redundando em processos judiciais. Um presidente não deveria, sob hipótese alguma, se expor a tantas reclamações e a maioria delas acabam virando processos. Isso faz com que ele fique muito vulnerável pela sua inconstância comportamental. Mas o pedido (impeachment) não, pois existem interesses dos dois lados.

 

OP: Qual sua análise em relação ao cenário econômico atual?

(IP): Eu sou um otimista e nunca fugi disso. Penso que depois que essa tormenta passar vão aparecer empresários com a cabeça no lugar. Eu vejo isso sendo feito pela agricultura e pela pecuária. Agora é preciso que, de repente, ao invés de exportarmos os produtos como matéria-prima, enviemos ao exterior já industrializados.

 

OP: O governo federal perdeu com a saída de nomes até então considerados expressivos, como o ministro Sérgio Moro?

(IP): Perdeu. A saída do (Luiz Henrique) Mandetta foi muito rápida e não sei quais foram os motivos básicos, mas deve ter sido algum interesse para que fosse afastado para que não crescesse a possibilidade de um enfrentamento amanhã ou depois entre Bolsonaro e Mandetta. O mesmo pode estar sendo refletido no Moro. Particularmente acho que o Moro fez o que ninguém fez até hoje no Brasil. Cursei faculdade com Dalton Moro, pai do Moro. Ele fez o que a maioria da população responsável do Brasil queria que fizesse. Pela primeira vez na vida um presidente na cadeia. Foi injustiça? Foi golpe? Não, foi a lei. Os presidentes acham que eles têm direito a tudo. Onde e como foi parar tanto dinheiro da Petrobras no exterior? Lógico, oito anos de governo com mais oito do mesmo partido são 16 anos. Isso é uma geração. Quanta gente foi denunciada e processos correram, mas preso mesmo, o mais interessante, é que foi um presidente pela mão dos juízes. Parece-me que no caso do Lula não tem dúvida que mais gente deveria estar lá. Além disso, estão fazendo hospitais de campanha, mas deveriam ser feitas também uma porção de cadeias novas e inaugurá-las com “bichos graúdos” para mostrar ao mundo que esse Brasil não é só inversão de valores.

 

OP: O que esperar do Brasil pós-pandemia?

(IP): Hoje politicamente está uma desorganização organizada. O setor cooperativista deve ser mais dinâmico. O Brasil vai ser, antes de mais nada, um país em que todo mundo tem que ir em conjunto, as pessoas do bem, porque as do mal você já conhece. Estou analisando hoje o Podemos, partido do senador Alvaro Dias. Eu sou Alvaro Dias até embaixo d’água. Veja as pessoas que ele está colocando no partido, o Oriovisto Guimarães. O cara é fora de série pelas suas ideias, um homem que foi candidato a senador e só uma vez. Eu fico abobado com as ideias deles e mais outros que estão dentro do PSDB, porque nem todos são maus. Seleciona esse pessoal e tem que haver alguém lá com a capacidade para fazer isso. Deixa o problema político do Senado, do Bolsonaro, e vamos começar a nos preocupar com o Brasil como um todo. O Brasil e seu povo querem, e eu penso que isso vai acontecer.

 

OP: O que esperar de uma eleição em meio a uma pandemia, algo nunca vivenciado até aqui? O ideal seria adiar? Haverá prejudicados?

(IP): Vamos ter eleição agora e como vai ficar o país? Como se reorganizar? Eu quero ver a hora que vier a conta, como o Brasil vai pagar isso? Então, a briga vai ser em cada município. Cada um vai ficar interessado com a eleição municipal, mas e a preocupação com o Brasil? Isso vem depois dessa pandemia e quem tem que ser acionado é o Brasil inteiro. Vão sobrar os deputados, senadores e governadores para resolver o problema. Quem tiver o maior número ao seu lado vai definir as regras do que fazer com a economia. Eu tenho pena do ministro da Economia (Paulo Guedes). De repente a consciência diz que não pode sair, pois ele é o elemento-chave. O PSDB vê a possibilidade do governador de São Paulo. Mas eu acho que essa pandemia vai muito mais prejudicar do que ajudar eles. Penso que na eleição para prefeito vai surgir muita coisa que não é agradável aos municípios, porque hoje o Bolsonaro não reúne mais ninguém, mas tem gente que ainda acredita. O PT vai apoiar alguém, esse é o problema. O cara que pega esse apoio vai ter que aguentar o PT no poder. Foi o que aconteceu com o MDB, que lançou Temer vice da Dilma.

 

OP: Que legado/aprendizado é possível tirar dessa pandemia do novo coronavírus?

(IP): Ela traz muitas lições. Em primeiro lugar uma conscientização muito clara com a saúde. As escolas têm que entrar nisso aí, porque estão ensinando temas relativos à ciência e isso vai abrindo a cabecinha das crianças. Você não conserta esse país se não for pela educação, agora se a educação continuar do jeito que está, nós vamos descer a serra. O Brasil não foi pego de calças tão curtas a ponto de não preparar alguma ação. O grande problema do Brasil foi o estrelismo das lideranças políticas. O presidente quis agradar os prefeitos e o pessoal do interior e deu os governadores para assumirem nos Estados e para os prefeitos. Quem estiver esperando uma chance na política senta na oposição e “larga o pau”, é isso o que vai acontecer.

 

OP: O senhor, que é professor aposentado, vê de que forma os desafios vividos atualmente na área educacional, tanto por colégios/escolas, professores e alunos? Que marcas acredita que essa pandemia inesperada vai deixar ao setor?

(IP): O professor é um produto das faculdades. Estuda em uma faculdade que tem nome e responsabilidade de formar um bom professor. Eu observei ao longo de minha carreira que não é mais o que acontece, fica muito mais na própria vontade do acadêmico se esmerar e não se deter só naquilo, de pesquisar. Eu sou do tempo de ir à biblioteca, passar um sábado e um domingo copiando porque não tinha de onde tirar. Nunca usei um livro para dar aula. A educação tem que mudar, não pode ser mais como está acontecendo. O diretor da escola deve dar autorização e o professor apresentar um plano de aula para acompanhar. Aula tem hora para começar e hora para acabar. Educação não é só se preocupar com o Ensino Médio, mas com o Ensino Fundamental. E valorizar o professor é conhecimento.

 

O Presente

 

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