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Urbano Mertz

Viajando pelo Egito III: os deuses e os núbios

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Após visita a Luxor, subimos o Rio Nilo num barco-hotel até a cidade de Assuam. No meio do caminho entre Luxor e Assuam, uma parada na cidade de Edfur, onde se localiza o mais bem preservado templo do antigo Egito, dedicado ao deus Horus.

Horus era venerado como deus protetor das famílias e dos faraós e era representado por um falcão. A preservação do templo se deveu ao fato de que ele foi totalmente coberto por lama e detritos trazidos pelas cheias do rio Nilo ao longo de centenas de anos.

O templo está localizado a cerca de dois quilômetros do porto e, para chegar até lá, os turistas são transportados em charretes puxados por um cavalo. A corrida pelas ruas quentes e empoeiradas da cidade, com cheiro de estrume de cavalo, gritos, buzinas e xingamentos dos charreteiros buscando espaço nas ruas estreitas é uma aventura à parte. São centenas e até milhares de turistas transportados diariamente nesta corrida louca, que não agrada a todos, mas faz parte da atração da cidade.

O Templo de Horus foi construído na era ptolomaica, formada por faraós de descendência grega, e que foi última dinastia do antigo Egito. Seu reinado foi do ano 304 ao ano 30 antes de Cristo, quando o Egito foi conquistado pelo império romano e se tornou uma província de Roma por mais de 600 anos.

Este templo representa bem a fusão religiosa egípcia tradicional e a religião dos faraós de descendência grega. A dinastia grega foi aceita no Egito por venerarem deuses e professarem ritos e crenças similares aos egípcios. No templo de Horus também foram resgatadas tradições religiosas da primeira dinastia, de quase 3.000 anos antes, o que transmitia para o povo a perenidade dos valores religiosos da civilização egípcia.

Após visita ao templo de Horus, o navio-hotel seguiu subindo o rio e, ao anoitecer, atracou em Kom Ombo, onde há um magnífico templo com dois portais, porque dedicado a dois deuses: a Sobek, deus da fertilidade e criador do mundo, representado por um crocodilo, e ao deus Horus. Este templo possivelmente foi reconstruído no período ptolomaico, e tem algumas informações muito interessantes: gravado nas paredes cenas de um parto e de um conjunto de materiais cirúrgicos, que levanta a hipótese que o local também tenha servido como hospital; na parte externa do templo estão esculpidas cenas de perseguição aos cristãos, que datam do período romano antes da conversão de Roma ao cristianismo.

A última parada, com direito a dois pernoites no navio, foi na cidade de Assuam. Assuam é mais conhecida pela hidrelétrica feita com o represamento do rio Nilo, obra inaugurada na década de 60. Acima da represa, muitas construções e resquícios da antiga civilização egípcia foram inundados. No entanto, alguns templos mais significativos foram integralmente transferidos dos lugares originais para uma ilha formada no lago de uma antiga represa, construída no início do século XX, sete quilômetros abaixo da grande represa de Assuam.

O templo mais famoso reconstruído nesta ilha é o dedicado à deusa Ísis, que está na origem da mitologia e das crenças religiosas do antigo Egito. Nas suas paredes e nas estátuas há inúmeros exemplos da influência das novas religiões adotadas pelos egípcios após o colapso do império, e que utilizaram estes templos para seus cultos.

Na civilização egípcia, o rosto dos deuses e dos faraós, e principalmente os seus olhos, expressavam mensagens e propósitos que poderiam ser facilmente compreendidos pelo povo. Seguidores do cristianismo e, na sequência, do islamismo também cuidaram de desfigurar muitas faces de estátuas e apagar inscrições e imagens entalhadas nas paredes de granito relativas à antiga religião egípcia.

Com a construção da represa de Assuam também houve o deslocamento dos núbios. O povo núbio vivia às margens do rio Nilo, acima de Assuam até o atual Sudão. Têm língua e origem étnica distinta dos egípcios. Já haviam constituído um reino antes do antigo império egípcio, e foram por estes dominados. Porém, cerca de 1000 anos antes de Cristo formaram a 25ª dinastia, a dinastia dos faraós negros, após expulsarem os assírios que haviam dominado o Egito.

Até hoje os núbios mantêm tradições e línguas próprias. A língua é transmitida oralmente de geração em geração e não tem registro escrito. E uma das tradições que pudemos observar no assentamento núbio foi a criação de um crocodilo numa espécie de baia coberto com grade de ferro, bem no meio da casa.

Por último, visitamos uma antiga pedreira em Assuam. Dali saíram blocos de granito vermelho e obeliscos de milhares de toneladas, transportados em barcos até Luxor ou para construção de sarcófagos e estruturas dentro das grandes pirâmides, cerca de 900 quilômetros abaixo.

Foram os antigos egípcios que construíram os primeiros obeliscos, com um topo em forma de pirâmide, que era coberto com uma liga de ouro e prata para que brilhasse ao nascer do sol, como homenagem ao deus Sol Rá, pai de todos os deuses e da humanidade.

Mas foi na Europa que os obeliscos egípcios fizeram sucesso, pois a maioria destas obras de arte se encontra atualmente em Roma (sendo um bem no centro da praça de São Pedro), em Paris e em outras cidades. Quando não saqueados pelos impérios europeus, foram docilmente cedidos, trocados por dívidas ou vendidos pelos governos locais.

Viagem ao Egito organizada pela MVM Turismo de Curitiba, em outubro de 2022

Perdeu os dois primeiros artigos da série? Clique aqui e confira o primeiro e aqui o segundo.

Por Urbano Mertz. Ele é engenheiro agrônomo, vice-presidente do Conselho de Desenvolvimento Agropecuário e vice-presidente do Conselho do Meio Ambiente, ambos de Marechal Cândido Rondon

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