Marechal TEA

Aumenta número de crianças com autismo em Marechal Rondon

Foto ilustrativa

 

Inabilidade para interagir socialmente, dificuldade no domínio da linguagem para comunicar-se e padrão de comportamento restritivo e repetitivo. O Transtorno do Espectro Autista (TEA) é um transtorno global do desenvolvimento marcado por essas três características fundamentais. “Mas não existem dois autistas iguais”, afirma a psicóloga da Secretaria de Educação de Marechal Cândido Rondon, Débora Pesavento.

Segundo dados do Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC na sigla em inglês), órgão ligado ao governo dos Estados Unidos, estima-se que a cada 68 crianças nascidas, uma apresentará o Transtorno do Espectro Autista. “No Brasil, estima-se que o índice seja de uma criança para cada 100 nascidos, mas pela minha atuação e acompanhamento de diversos casos, acredito que o índice seja o mesmo dos Estados Unidos. Os casos de TEA têm aumentado muito e infelizmente devem continuar a aumentar nos próximos anos, conforme indicam diversas pesquisas”, assinala a assessora pedagógica da Educação Especial da Secretaria de Educação, Regina Dick. “O TEA não é um transtorno nada fácil. Presenciamos situações muito difíceis em que temos que, muitas vezes, convencer a família do diagnóstico da criança para que ela dê o suporte necessário”, enaltece.

De acordo com dados da Secretaria de Educação, em Marechal Rondon, atualmente são atendidos 17 alunos laudados como autistas, tanto nos Centros Municipais de Educação Infantil (CMEIs) como nas escolas municipais, que têm acompanhamento pela equipe multidisciplinar do município.

Além de psicóloga e assessora pedagógica, fazem parte da equipe da Educação Especial fonoaudiólogo, psicopedagoga e coordenadora e nas salas de aula as crianças contam com professor de apoio educacional especializado (PAEE), conforme estabelecido e regulamentado por lei. “Há sete anos, quando comecei a atuar no município, haviam duas ou três crianças com TEA sendo atendidas na rede. Hoje são quase 20, então tanto na prática quanto em estudos observamos que o número de autistas está aumentando e vai aumentar mais ainda conforme apresentado em diversas pesquisas”, salienta Débora.

 

Sinais inespecíficos

Pelo grau de comprometimento do TEA ser de intensidade variável, apresentando-se de forma leve, moderada até a mais grave, Regina explica que diagnosticar o autismo não baseia-se em sinais específicos. “Há crianças com TEA que choram muito quando são pegas no colo, mas outras gostam de colo e deixam pegá-las sem problema nenhum”, compara.

Na maioria dos casos, pontua ela, a criança diagnosticada com TEA tem o desenvolvimento diferente das outras crianças neurotípicas. “É possível observar sinais a partir dos quatro meses para pessoas que têm um olhar mais clínico”, diz. “Para as crianças que recebem o diagnóstico nesta idade, ainda que não seja um diagnóstico fechado e aponte apenas a pauta autista, é algo muito positivo, pois elas terão uma intervenção e a possibilidade de melhorar o quadro do espectro, seja na linguagem ou na interação social”, ressalta.

Em alguns casos, Regina comenta que a criança está se desenvolvendo normalmente e em determinada idade, por volta dos 18 meses, por exemplo, ela para de falar e de interagir, fato que deve alertar os pais para levá-la ao pediatra, que deve encaminhar a criança ao neuropediatra, especialista responsável por fazer o diagnóstico. “Mas na maioria dos casos não há essa ruptura. Normalmente a criança já vem desenvolvendo-se de forma diferente”, frisa.

Quando apontada pelo neuropediatra a “pauta autista”, significa que a criança possui um diagnóstico não conclusivo acerca do transtorno. Nestes casos, Regina comenta que mesmo sem o diagnóstico fechado deve haver a intervenção de acordo com as necessidades da criança: psicólogo, fonoaudiólogo e terapeuta ocupacional. “Quando essa criança sem o diagnóstico conclusivo chegar à idade escolar pode ser que o TEA não se efetive, mas se for efetivamente o transtorno e ela não teve as intervenções? Sem dúvida o desenvolvimento dessa criança será extremamente prejudicado”, pontua.

 

Sem causa e sem cura

Além de não ter cura, o TEA não tem uma causa específica. Algumas pesquisas apontam o autismo relacionado ao uso de agrotóxicos, outras aos hábitos alimentares e já houve um mito de que as vacinas causavam o autismo – que foi desmistificado pela comprovação científica. “Apesar de existir a ocorrência de pessoas com TEA na mesma família, o fator genético também não é apontado como causa do autismo. Então a causa do TEA ainda está nos enigmas da ciência”, menciona Regina.

Há casos em que os sinais do TEA são vistos apenas quando a criança começa a frequentar o ambiente escolar. Regina diz que isso ocorre pelo fato de a escola ser um dos primeiros ambientes de interação social na qual a criança é inserida, mas com diferentes regras e rotinas do que o ambiente familiar onde ela costumava frequentar. “A escola pode ser um fator desencadeante de um transtorno que já existia e não a causa do transtorno. O que acontecia era que antes esse transtorno passava despercebido porque a criança agia daquela forma, naquele contexto e quando colocada em uma diferente rotina, de interação com outras pessoas, os sinais aparecem. E é neste momento que devemos intervir”, reforça.

Quando observado no ambiente escolar, na rede municipal de ensino, a instituição informa a equipe multidisciplinar da Secretaria de Educação. “Fazemos o primeiro contato, vamos até a escola e quando percebemos que há indícios do TEA, apontamos em um relatório, que também é feito pela própria instituição de ensino, e é realizada a orientação aos pais para que a criança seja encaminhada ao neuropediatra, que é quem faz o diagnóstico”, expõe Débora.

No município, as consultas com o especialista são feitas por meio do Consórcio Intermunicipal de Saúde Costa Oeste do Paraná (Ciscopar), no âmbito do Sistema Único de Saúde (SUS). Entretanto, para aquelas famílias que têm a possibilidade, há uma profissional que realiza atendimentos sociais voltados a crianças de escolas públicas no município de Cascavel, que cobra 50% do valor da consulta. “Assim como para as consultas feitas via Ciscopar é necessário apresentar o relatório escolar que aponte o desenvolvimento da criança e os indícios para o TEA”, declara Débora.

 

Tratamento

Seja com diagnóstico fechado ou apenas com a pauta para o autismo, as crianças atendidas na rede municipal, após passarem pelo neuropediatra, são atendidas pela equipe multidisciplinar da Secretaria de Educação de acordo com suas necessidades específicas. “Algumas são atendidas semanalmente pelo fonoaudiólogo e psicóloga, outras apenas pela psicóloga, outras pelos dois profissionais e por terapeuta ocupacional. Esse atendimento com os especialistas varia de acordo com cada caso”, detalha Regina.

Débora expõe que há famílias que têm a possibilidade de buscar a rede particular de saúde para esses atendimentos, quando possuem plano de saúde, por exemplo, conforme a especialidade para o caso. “Mas aqueles que não possuem são atendidos aqui na rede”, frisa.

 

Apoio familiar

Apesar de o autismo ter um número relativamente grande de incidência, foi apenas em 1993 que a síndrome foi adicionada à Classificação Internacional de Doenças (CID) da Organização Mundial da Saúde (OMS). Isso é reflexo do pouco que se sabe sobre o tema.

E é justamente por isso que Regina enaltece a importância de informar cada vez mais a população sobre o Transtorno do Espectro Autista, as formas e intensidade como se manifestam em cada criança. “O TEA não atinge somente a criança, mas seus familiares, principalmente os pais. Muitos logo começam a lutar, buscar o tratamento para o desenvolvimento, mas há outros que negam, que não aceitam a intervenção e o acompanhamento. São muitos os casos em que o diagnóstico é vivenciado de forma negativa. Mas é preciso deixar muito claro que evitar a intervenção é adiar o problema, porque o TEA vai se manifestar mais tarde, quando a criança passar a conviver socialmente”, enfatiza.

 

O Presente

TOPO