Marechal 54 anos de Medicina

Médico com mais tempo de atuação em Marechal Rondon tem 6,6 mil partos no currículo

Clínico geral e especialista em ginecologia e obstetrícia, Dr. Helio Hidetoshi Sakuragui: “Os novos médicos que se formam, independente da questão financeira ou da área de atuação, precisam pensar realmente no paciente em uma Medicina mais humana que tanto se fala, pois é neste aspecto que terão sucesso” (Fotos: Leme Comunicação)

 

“Se viemos ao mundo para servir, por que vamos desistir? Enquanto eu puder servir, eu vou fazer, por isso, enquanto puder, vou continuar praticando a Medicina”.

Esta é a fala do médico clínico geral e especialista em ginecologia e obstetrícia Helio Hidetoshi Sakuragui, de 81 anos, que chegou a Marechal Cândido Rondon em fevereiro de 1961. Ele é o médico com mais tempo de atuação no município. Aos 81 anos, ainda trabalha ativamente.

Vindo da Capital paranaense, cidade onde se formou em Medicina, Dr. Helio desembarcou primeiro em Toledo. Lá, conta ele, o Dr. Campagnolo o designou para atuar em Marechal Rondon. “Ele estava organizando alguns locais para atendimento médico e por meio dele comecei a atuar no município”, relembra.

Dr. Helio comenta que na época existiam dois hospitais no município: um de propriedade do doutor Aylson Confúcio de Lima, o Hospital Rondon, e outro de Friedrich Seyboth, o Hospital Filadélfia. “Na época eu atuava basicamente em uma casa adaptada para um hospital, ao lado do Hospital Rondon, onde atualmente é a casa do falecido Levi Martins Gomes”, expõe.

Entre as dificuldades da época, diz o médico, estava a iluminação pública, bastante precária e vinda de uma usina de Novo Sarandi. “Pareciam tomates pendurados nos postes”, brinca.

 

Medicina de investigação

Sem as facilidades encontradas em qualquer hospital, como raio-x, ecografia ou a possibilidade de solicitar exames laboratoriais, Dr. Helio menciona que na época a Medicina era baseada em exames clínicos e na investigação do paciente “de cima a baixo”. “Os exames de laboratório mais simples eram feitos, mas os mais complexos não eram acessíveis aqui, não só pela inexistência de altos projetos, mas também porque o município não comportava um laboratório melhor”, pontua. “Nós trabalhávamos, na verdade, com a ajuda de alguém lá em cima chamado Deus”, reflete Dr. Helio.

Os procedimentos cirúrgicos, relata, eram também bastante desafiadores. Diferente de hoje, em que as equipes são compostas por diversos profissionais, antigamente o médico era acompanhado por enfermeiras. “Quem nos ajudava com frequência nas cirurgias também era o falecido Gernot Reuter, que trabalhava na farmácia”, conta.

Nos partos, especialidade do Dr. Helio, ele afirma que o médico passava todo o tempo junto da parturiente. “As enfermeiras também estavam presentes, é claro, mas eu sempre estava junto da gestante, durante o dia ou à noite, não importava o tempo que levasse o trabalho de parto. O médico estava ao lado da parturiente até o nascimento de seu filho”, salienta.

O principal desafio de auxiliar as mães a trazerem seus filhos ao mundo, enaltece o profissional, era principalmente quando o trabalho de parto durava toda a noite. “Quando passávamos a noite toda em claro, no outro dia logo cedo continuávamos trabalhando, então não era nada fácil”, ressalta.

Apesar de não ter feito nenhuma estatística “oficial” de quantos partos realizou no município, o médico estima que já tenha participado de pelo menos 6,6 mil nascimentos. “Há muitas pessoas que me encontram na rua e dizem ‘o senhor fez o meu parto’ e eu digo: ‘quantos anos você tem?’ Já me responderam que tinham 40 anos, mas eu realmente não me lembro”, conta com bom humor.

 

Avanço da medicina

Dr. Helio avalia que naquela época a formação profissional das faculdades de Medicina era excelente e os estudantes recebiam um conhecimento geral mais aprofundado de todas as doenças e não apenas de sua especialidade. “Hoje temos especialistas excelentes, mas em determinada região do corpo, já no passado, nós tivemos, além da especialização, uma formação geral, o que foi algo muito bom para a nossa atuação até os dias de hoje. Tenho muitos pacientes que buscam atendimento voltado para a clínica geral”, enfatiza.

Ele frisa que o trabalho prático por meio da atuação no interior do município, como nos distritos de Porto Mendes, além de Mercedes, Entre Rios do Oeste e Pato Bragado, que na época ainda não eram emancipados, agregou muito conhecimento à sua carreira. “Algumas doenças que hoje não existem ou raramente são vistas, como tétano, difteria, poliomielite, varíola, que graças à vacinação hoje inexistem, na época tínhamos que quebrar a cabeça para fazer o diagnóstico correto e indicar o tratamento adequado”, observa.

Dr. Helio comenta que a Medicina evoluiu de maneira muito rápida nos últimos anos, com aplicação de tecnologias de excelência, exames de imagem, laboratórios com exames especializados e avanços em todas as áreas. “A oftalmologia, por exemplo, no passado quem falava em operar o olho?”, questiona.

Ele destaca que nos primeiros anos de sua carreira, além da investigação profunda por meio do histórico do paciente e de exames clínicos, a intuição do médico contava muito para o diagnóstico. “Muitas vezes pensávamos na doença, investigávamos e realmente o problema era o que havíamos pensado e essa experiência hoje me faz atender o paciente de forma diferente. Eu sempre procuro me aprofundar mais nas queixas, perguntar mais, perder um pouco mais de tempo no consultório e no exame clínico, entender mais da história da pessoa, antes de solicitar os exames”, revela. “Há casos em que os exames não são nem necessários, pois apenas pelo exame clínico e pelo histórico consigo fazer a afecção da paciente”, complementa.

 

“Como ser humano tive erros, mas acredito que acertei mais do que errei”

 

Momentos marcantes

Nos 54 anos de atuação em Marechal Rondon e na microrregião, Dr. Helio diz que houve inúmeras situações que presenciou que marcaram sua carreira. “Tanto momentos bons, de felicidade, quanto momentos ruins e de muita tristeza”, pontua.

Um dos casos relembrados pelo médico está em um parto de uma paciente vinda de Santa Helena para o município. “Era uma gestante gemelar, com as duas crianças do mesmo sexo, que nasceram com uma deficiência muito grande, um quadro que chamamos de extrofia vesical, que é quando a parte debaixo do abdome, da bexiga, é totalmente aberta”, conta. “As duas crianças estavam ligadas pelo cordão umbilical apenas, o intestino totalmente à mostra e, infelizmente, em poucos minutos pararam de respirar e faleceram”, relembra.

O médico relata que nunca havia visto ou ouvido relatos sobre casos como aquele, tanto no tempo de atuação quanto durante sua formação. “Foi um caso que nos chocou bastante, por ser uma gestante primigesta, gemelar e pelas duas crianças terem nascido com a deficiência. Era um quadro clínico que na época não teria condições reais de salvar mesmo que fosse para fora de Rondon”, comenta.

Por outro lado, Dr. Helio acredita ter realizado muito mais trabalhos positivos durante sua carreira, fato que é reforçado por até hoje contar com pacientes antigos em seu consultório, que buscam seu atendimento por terem confiança em seu trabalho, bem como gestantes, atuando tanto em sua clínica como no hospital, também auxiliando em procedimentos cirúrgicos. “Sou muito agradecido e feliz por isso. Felizmente fiz uma boa clientela. É claro que como ser humano tive erros, mas acredito que acertei mais do que errei”, avalia o médico.

E Dr. Helio não está errado. Em 2013, o profissional foi condecorado com o Diploma de Mérito Ético-Profissional pelo Conselho Regional de Medicina do Paraná (CRM-PR), que homenageia os médicos que tenham completado 50 anos ininterruptos de atividade sem sanção ético-profissional e com relevante e exemplar conduta médica. “Jamais imaginava chegar até aqui. Eu ouvia falar de outros profissionais e me questionava se um dia alcançaria esse feito, mas no passado nunca imaginei. Entretanto, chegou meu dia e fiquei muito feliz”, enaltece.

  

 

Medicina humanizada

Dr. Helio diz que apesar da evolução da Medicina, o relacionamento entre médico e paciente hoje, diferente do passado, tem se tornado cada vez mais distante e superficial. “Em uma consulta simples, o médico fará duas, três perguntas, vai receitar um medicamento ou pedir um exame e liberar o paciente. Mas será que o paciente vai ter confiança no que o profissional disse ou ter afinidade com o médico que o atendeu?”, questiona.

Ele pontua que teve a formação familiar de respeitar o seu semelhante e sempre observou o atendimento de médicos muito distante de pacientes, questionando-se: “e se a paciente do outro lado da mesa fosse a minha mãe? Ou a mãe daquele médico? Que tipo de atendimento ele está oferecendo? Por mais que o médico estivesse certo no diagnóstico, apenas pedir um exame ou receitar um remédio fazendo duas ou três perguntas é uma forma de atendimento muito distante”, reflete.

Quando procurado por um paciente, Dr. Helio diz que busca sempre conversar mais, muitas vezes, sobre um assunto que não tem relação com o problema ou doença. “E muitas vezes com essa conversa apenas a pessoa acaba sentindo-se melhor porque queria uma atenção apenas. Nós, médicos, precisamos ser mais humanos e mais pacientes nesse ponto. Sempre me lembro de uma frase que li no Ensino Fundamental que dizia ‘a paciência é uma grande virtude que devemos cultivar’”, compartilha.

O médico considera que hoje Marechal Rondon está muito bem estruturado no atendimento em saúde. “Mas o município está crescendo e consequentemente vão surgir novas demandas”, pontua. “Observo que os novos médicos que se formam, independente da questão financeira ou da área de atuação, precisam pensar realmente no paciente em uma Medicina mais humana que tanto se fala, pois é neste aspecto que terão sucesso”, finaliza Dr. Helio.

 

 

Em 2013, Dr. Helio recebeu o Diploma de Mérito Ético-Profissional pelo CRM-PR, que homenageia profissionais com 50 anos ininterruptos de atividade sem sanção ético-profissional e com relevante e exemplar conduta médica. Aqui, com a esposa e os filhos (Foto: arquivo pessoal)

 

 

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