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Paraná

Unidos pela fé

Mirely Weirich/OP
Apesar de contar apenas com oito mil habitantes, Nova Santa Rosa une mais de 20 denominações religiosas que vivem em harmonia e trabalham juntas para a conquista dos objetivos do município

Um município com pouco mais de oito mil habitantes que divide em seu território de 204 mil quilômetros quadrados 23 denominações religiosas. Em apenas uma rua da pequena, porém próspera Nova Santa Rosa, podem-se contar sete templos religiosos, que contemplam as igrejas tradicionais que estão no local desde a sua colonização, ocorrida há mais de 40 anos, até as mais recentes, chegadas após a década de 1990.

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De acordo com o professor Elio Migliorança, que reside no município há 46 anos e analisou como o ecumenismo é visto nas igrejas e vivido pela população nova-santa-rosense, a forma como a região foi povoada pela Colonizadora Maripá deu ao município Joia do Oeste a característica de unir todas as igrejas com base na mensagem do Evangelho. “Uma das políticas da Maripá era que em determinadas regiões as propriedades eram vendidas apenas para quem era de determinada religião. No caso Palotina, por exemplo, predominava o catolicismo, bem como em Quatro Pontes”, explica Migliorança.

Naquela época, quem chegava para fixar residência na região e fazia questão de morar em uma área com pessoas da mesma índole religiosa que a sua também tinha esta como uma das exigências no momento da compra da área de terra.

Nova Santa Rosa, apesar de os primeiros moradores serem de comunidades batistas e evangélicas, tornou-se uma área ecumênica por devotos da Igreja Católica Apostólica Romana terem comprado terras no local. “Eles aceitaram entrar aqui e foram aceitos por aqueles que já estavam aqui”, cita.

Durante mais de 30 anos, por exemplo, o distrito de Alto Santa Fé possuía apenas uma Igreja Católica, por isso, era 100% de seguidores do catolicismo. “Agora que tem um ou outro morador de outra denominação, e isso acontece porque esse distrito se emancipou de Palotina e não de Nova Santa Rosa. Em termos de município, quando agrega o distrito, o número de católicos fica maior, mas na sede a Igreja Católica é a sexta igreja em tamanho e até hoje a população da Igreja Católica não é a maior no município”, destaca o professor.

Atualmente, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) estima que 4.445 moradores de Nova Santa Rosa sejam evangélicos e outros 2.970 da Igreja Católica Apostólica Romana. Conforme o pesquisador, as comunidades com maior número de membros são a 1ª Igreja Batista, Igreja Batista Independente, as Igrejas Evangélicas Luteranas – uma de Confissão Luterana no Brasil e outra de Confissão Luterana do Brasil – e a Igreja Congregacional. Essas, junto da comunidade católica, da Igreja de Deus, Igreja de Cristo e a Assembleia de Deus povoaram o município. “Quando surgiram no Brasil as Pentecostais, na década de 1990, vieram várias outras chegando a esse número de 23, mas durante 25 anos aproximadamente convivemos na comunidade com uma média de 12 a 14 igrejas”, ressalta Migliorança.

 

União

A diversidade religiosa no município nunca foi um empecilho para a convivência harmoniosa da população ou para a conquista dos objetivos comuns. Migliorança afirma que existem igrejas que conflitam entre si, mas tudo ocorre veladamente, no âmbito interno. “Para a conquista dos objetivos comuns da comunidade, as igrejas na verdade são um fator agregador”, aponta.

No passado, lembra, tendo 14 igrejas existiam 14 padres ou pastores, que são lideranças cultas e bem esclarecidas perante sua comunidade religiosa. “Convencendo os padres e pastores, automaticamente convencia-se a comunidade daquela igreja para determinada causa, porque eles são lideranças de referência para muitas famílias”, expõe.

Migliorança atuou como professor por muitos anos nas escolas da cidade e explica que media a convivência entre as diferentes crenças religiosas neste ambiente, considerado por ele o centro da cultura e da vida em sociedade. “Na minha pesquisa questionei aos alunos se a religião tinha influência na escolha dos amigos, da namorada ou namorado e descobri que não. Antigamente, e ainda hoje também, houveram muitos casamentos entre pessoas de religiões diferentes, mas nem sempre a namorada passava para a religião do namorado, às vezes o namorado passava para a religião dela e existem também muitos casamentos em que cada um continuou na sua igreja e funcionou muito bem, era uma convivência muito harmoniosa entre as religiões”, exemplifica.

 

O fim da devoção?

Apesar da ligação muito forte entre a população e a igreja, o pesquisador avalia que perdeu-se muito, ao longo dos anos, a questão da religiosidade. Algumas famílias ainda conseguem manter a devoção nas novas gerações, contudo, a presença frequente de jovens nas igrejas diminuiu consideravelmente na visão de Migliorança. “Uma parte dos que vão é por tradição familiar, outros por sentirem a necessidade de buscar algo a mais, um desenvolvimento cultural. Hoje vemos que as próprias igrejas investem muito em retiros, cursos e outros meios para conscientizar e doutrinar, através dos quais eles conquistam e mantêm os jovens fiéis”, diz.

Outro fenômeno muito comum de ser visto são jovens que frequentam mais de uma igreja, o que, na visão de Migliorança, também é positivo. “Ainda assim, se no passado Nova Santa Rosa tinha 2% da população que não frequentava nenhuma comunidade religiosa, esse número hoje subiu para 15%”, estima.

 

Marco histórico

Inaugurado na década de 1970, o Seminário Santo Américo também foi de grande importância para o crescimento não apenas ecumênico do município. Migliorança conta que o seminário foi fundado por padres beneditinos húngaros – e ganhou o mesmo nome do seminário e colégio que os sacerdotes possuíam em São Paulo. “Na época os padres saíram pelo Sul do Brasil para escolher um lugar onde instalar um seminário onde os jovens iniciariam seus estudos seminarísticos, já que uma congregação religiosa precisa de vocações para formar novos padres”, conta. A escolha de Nova Santa Rosa aconteceu pela acolhida que tiveram do bispo da época e principalmente por se identificarem com o povo da região, a maioria de descendência europeia e de origem alemã. “Apesar de húngaros, os padres possuíam forte ligação com a Alemanha já que todos dominavam a língua”, comenta.

Mesmo formando apenas um padre no tempo em que ficou em atividade em Nova Santa Rosa, o Seminário Santo Américo possibilitou educação e formação a muitos jovens da região. A Diocese de Toledo também ganhou muito, pois o Seminário sempre tinha de dois a três padres que também atendiam a paróquia. “Para a comunidade foi um ganho enorme, pois além de líderes os padres eram professores na escola de primeiro e segundo grau. Um dos professores que morou aqui por 15 anos era doutor em História e na época professores com esse nível cultural só lecionavam em universidades de Curitiba, Londrina e Maringá. Na época era a única escola de segundo grau do Brasil que tinha um doutor lecionando”, relembra.

 

Filho único

Mesmo abrigando em determinada época até 60 seminaristas, o Santo Américo formou apenas um padre: Lucas Sebastião Schwarz, que hoje ainda atua na Paróquia Santa Rosa de Lima. Após concluir os estudos de Filosofia e Teologia em São Paulo, padre Lucas ainda foi designado reitor do seminário em Nova Santa Rosa e, após a volta dos padres beneditinos a São Paulo, ele pediu para permanecer no município. “Eu me senti acolhido aqui, me entrosei logo com o povo, a convivência é muito harmônica e tranquila desde aquela época, então já havia um núcleo de trabalho fraternal e eu também queria ficar próximo da minha família”, conta.

Após passar por várias paróquias da região, como Marechal Cândido Rondon, onde ficou por sete anos, padre Lucas voltou a Maripá, cidade onde seus pais residiam e, há três anos, voltou a Nova Santa Rosa. “Eu já conhecia o município quando era seminarista e tinha uma convivência muito grande com pessoas de outras igrejas porque estudávamos juntos na escola, sempre houve um respeito grande entre as denominações. Depois, quando retornei para cá, vi que esse respeito continua, mesmo existindo tantas igrejas. Há o respeito para com o próximo porque cada um sabe das suas dificuldades, seus problemas internos”, opina.

Nos momentos de celebração, diz, todas as igrejas contam com um grande número de fiéis. “Santa Rosa fica praticamente vazia porque as pessoas estão nas suas comunidades”, comemora o padre.

A união das religiões também é vista pelo pároco em momentos de comoção, como quando uma pessoa muito ligada ao município falece, por exemplo. “Não é uma única igreja, são todas as igrejas que se comovem, que se unem”, expõe o pároco.

Ele conta que o desejo pelo sacerdócio sempre esteve em seu coração e ainda quando criança buscou informações sobre como seguir este caminho junto a um padre de Nova Santa Rosa. “Eu tive cerca de 330 companheiros no seminário e cada um foi seguindo sua vocação e se orientando na vida, mas eu quis ser padre. Antes do meu último colega sair eu disse eu vou ficar, e essa decisão já perdura por 33 anos”, enaltece. “É importante dizer que o seminário foi sempre bem visto por ser também um ambiente cultural. O seminário não é uma fábrica de padres, ele é um lugar de discernimento. O meu foi para a ordenação, o dos outros foi diferente, e eu me sinto feliz, pois fui o primeiro a ser ordenado por dom Lúcio e fui o primeiro padre da nossa paróquia”, completa padre Lucas.

 

Participação

O apelo à unidade de todas as igrejas cristãs também é expresso na união de 16 comunidades no Conselho de Ministros Religiosos, representadas por seus ministros e ministras. A entidade engloba o convívio fraternal entre as diferentes denominações religiosas do município por meio de encontros mensais, nos quais são discutidos assuntos pertinentes ao grupo além de estudos de textos bíblicos para a troca de ideias. “As diferenças existem, cada igreja tem a sua maneira de ser, agir e atuar, mas dentro do Conselho somos uma igreja só, temos que ver de que forma podemos caminhar juntos sem olhar para as diferenças, mas sim para aquilo que nos une”, menciona o presidente do Conselho, pastor Milton Tribess.

Além de realizarem momentos de meditação junto aos clubes de idosos, aos colaboradores do Poder Público, no posto de saúde e nas escolas, o grupo realiza anualmente o Culto Fraternal com a apresentação de corais, que neste ano abriu as festividades do aniversário do município, celebrado amanhã (29), quando Nova Santa Rosa completa 41 anos de emancipação. “O evento contou com a participação de dez corais e reuniu um público de mais de 600 pessoas”, declara.

Outra atividade realizada pela entidade é a programação do Dia da Bíblia, celebrado no segundo domingo de dezembro. “Neste culto é levantada uma oferta para a distribuição de bíblias em um trabalho conjunto aos Gideões”, relata. “Essas são algumas atividades que realizamos também de forma a levar a mensagem de Deus a quem não frequenta a igreja”, complementa.

Tribess enfatiza que mesmo com a índole religiosa que vem de berço aos nova-santa-rosenses, algumas pessoas não têm tratado a religião como prioridade, por isso há um público que comparece às igrejas apenas em ocasiões especiais, como Natal e Páscoa. “Mas é importante ressaltar que precisamos buscar força na palavra de Deus. O ser humano é como um carro: precisa ser alimentado, não adianta só dar, também precisamos nos abastecer e as comunidades estão aí para isso”, frisa.

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