Dom João Carlos Seneme

Fica conosco, Senhor, pois já é tarde e a noite vem chegando

O evangelho narra a viagem de dois peregrinos a Emaús na noite de Páscoa. Eles nos representam principalmente neste tempo sóbrio que vivemos. Sabemos somente o nome de um deles, Cléofas; eles simbolizam os discípulos de todos os tempos. A dificuldade em acreditar é parte de nossa vida. Temos fé, mas os acontecimentos e tudo o que imaginamos sobre Deus entram em conflito e o resultado é o desalento, o medo, a frustração…

A história começa com os dois discípulos partindo. Saindo de Jerusalém, eles se afastam do evento da Páscoa, do mistério de Cristo, da comunidade onde aprenderam a crer e esperar. A morte de Jesus pôs fim às esperanças de uma restauração nacional, que expulsaria os inimigos ocupantes, recuperando a soberania nacional de Israel.

Casa do Eletricista – TORNEIRAS ELÉTRICAS

O forasteiro os ajuda a reler a história de Jesus a partir dos grandes acontecimentos do povo de Israel. Eles começam a perceber que existe um plano maior traçado por Deus desde sempre. Há uma ligação profunda entre todas as histórias de modo que ela se torna a História da Salvação. Esta descoberta torna-se um momento de graça e muda tudo.

A história recontada começa a reconstruir a humanidade deles, a esperança vai retornando, os corações vão se aquecendo, a alegria vai surgindo em seus rostos. O Forasteiro, ao criar um círculo de confiança, “cura” os discípulos e eles começam a ver suas vidas e acontecimentos com outros olhos. É o que acontece conosco na Celebração Eucarística: a escuta da Palavra de Deus nos ajuda a perceber Deus em nossa vida para que possamos vivenciar em plenitude a ceia eucarística.

O ser humano vai até Deus com suas expectativas, suas queixas, suas decepções… Deus escuta sua história e a coloca em referência à única luz que pode dar sentido à vida com seus acontecimentos: o evento da Páscoa, a plenitude das Escrituras, em que tudo adquire uma nova dimensão e uma nova esperança.

O evangelho ressalta que a Palavra é frágil e a escuta é difícil. Porém a provocação é clara: Deus não nos coloca em teste, Ele se apresenta como mistério de uma Palavra que pede para ser aceita e acolhida. Sem ter consciência disso, os dois peregrinos ouvem a voz do viajante, abrem a porta e jantam com ele (Ap 3,20). Fica conosco, pois já é tarde e a noite vem chegando! Não é apenas um gesto agradável de hospitalidade oriental, mas também a pergunta que todo fiel faz a si mesmo quando a escuridão aumenta e o desejo de uma Presença se torna urgente.

O ápice da história está localizado ao redor da mesa. Quando ele estava à mesa “com eles”, ele pegou o pão, recitou a bênção, partiu e deu a eles. É um convite evidente a todos os leitores cristãos que reconheçam no banquete eucarístico o sinal por excelência da presença de Cristo. A Eucaristia é a fonte da novidade da Páscoa. Os olhos, finalmente abertos, agora podem reconhecer o rio da vida que corria sob uma história marcada pela dor e desespero. No momento do reconhecimento, Jesus desaparece da vista deles. Eles voltam para a comunidade transformados. A celebração eucarística é um evento comunitário. O Ressuscitado dá aos discípulos a celebração da Palavra e da Eucaristia como lugar de encontro com ele nos acontecimentos difíceis da vida, onde tudo parece desmoronar, Ele está ali nos revelando as Escrituras e oferecendo sua próprio corpo e sangue para que tenhamos vida e vida em abundância.

 

O autor é bispo da Diocese de Toledo

revistacristorei@diocesetoledo.org

TOPO