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Casos de leishmaniose deixam rondonenses em alerta

 

Divulgação
Mesmo considerada atípica na região, leishmaniose já acometeu duas vítimas em Marechal Cândido Rondon neste ano: um humano e um cachorro, que foi submetido à eutanásia

Apesar de ser considerada uma infecção muito rara no Brasil, onde são registrados menos de 15 mil casos por ano, a leishmaniose visceral tem mobilizado as equipes de saúde pública de Marechal Cândido Rondon e deixado a população em alerta.

Mesmo não estando na lista de regiões endêmicas do mosquito-palha, vetor da doença que se prolifera em ambiente doméstico, o município já registrou dois casos de leishmaniose neste ano – um deles em um humano.

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Conforme informações repassadas pela equipe de Epidemiologia da Secretaria de Saúde, o caso é importado, ou seja, o paciente adquiriu a doença fora do município e apenas o diagnóstico e o atendimento aconteceram na Unidade de Saúde 24 Horas. O último caso registrado no município foi em 2014, quando duas pessoas foram diagnosticadas com a doença.

Já na Vigilância Sanitária (Visa), o caso de leishmaniose notificado culminou com a eutanásia de um cachorro. Segundo o órgão, a cocker spaniel foi trazida para o Brasil da Espanha e primeiramente vivia em São Paulo e, posteriormente, foi doada a um morador de Marechal Cândido Rondon. “Recebemos a denúncia que partiu do veterinário de um pet shop onde ela tomava banho por conta dela apresentar uma anemia severa e muita pulga. Nós fomos até a casa do tutor da cachorra e ele se comprometeu em tratar”, expõe a fiscal sanitária Thais Gonçalves.

O primeiro diagnóstico fechado para o caso foi de uma pré-disposição genética que cockers teriam, porém após um período de tratamento, o responsável pelo animal o entregou a outro tutor temporário para dar continuidade ao tratamento. “Depois de cerca de quatro meses com esse segundo tutor, a cachorra voltou para o dono com melhora dos sintomas, mas algum tempo depois já apresentou piora no estado de saúde, quando ela foi levada para atendimento na Universidade Federal do Paraná (UFPR) em Palotina e lá levantou-se a suspeita de leishmaniose”, informa Thais.

Após exames específicos realizados, a doença foi diagnosticada e o animal eutanasiado há algumas semanas. “Ainda não há um levantamento sobre a existência e circulação do mosquito-palha na microrregião, mas sabemos que pode existir porque em Foz do Iguaçu há casos de leishmaniose”, afirma a fiscal sanitária. “Contudo, esse é o único caso recente que tivemos notificado e é um caso importado, que veio de fora do município, e tanto a Espanha quanto São Paulo são regiões endêmicas, por isso não sabemos onde o animal foi contaminado”, conclui.

 

Mapeamento do mosquito

De acordo com o coordenador da Vigilância Sanitária, o médico veterinário Daniel Cotrim Garcia, com a notificação recebida pela prefeitura rondonense e repassada à 20ª Regional de Saúde de Toledo sobre o caso da leishmaniose canina, o órgão estadual realizará uma pesquisa entomológica com o objetivo de verificar se existem em Marechal Rondon mosquitos-palha infectados. “Estamos tomando todas as providências cabíveis e torcemos para que esse tenha sido um caso isolado”, expõe.

 

Alerta

Até 2015, no Paraná o coeficiente de incidência de leishmaniose visceral a cada 100 mil habitantes era de zero, sendo que o último óbito humano registrado foi em 2006, de acordo com o Ministério da Saúde. “Ter esse caso aqui, no entanto, serve para abrir nossos olhos de que a doença existe, que está perto e que precisa ser investigada. Muito mais que a saúde dos nossos animais, a leishmaniose é uma questão de saúde pública”, opina a médica veterinária Aline Hoffmann.

Transmitida pela picada do mosquito-palha, nos humanos a leishmaniose visceral afeta os órgãos internos, geralmente baço, fígado e medula óssea. Algumas pessoas não apresentam sintomas, mas em outra os sinais da doença podem incluir febre, perda de peso e inchaço do baço ou fígado – caso a doença não for tratada, pode evoluir para óbito em mais de 90% dos casos. “Nos animais, esta é uma zoonose com diversos sinais clínicos e justamente por não ter apenas uma forma de apresentação pode ser confundida com outras doenças”, explica a profissional.

Apesar de normalmente afetar os cães, gatos, animais silvestres e mamíferos em geral também podem ser acometidos pela doença. Conforme o Ministério da Saúde, inicialmente a zoonose era caracterizada como doença de caráter eminentemente rural, contudo, mais recentemente tem se expandindo para áreas urbanas de médio e grande porte e se tornou crescente problema de saúde pública no país e em outras áreas do continente americano, sendo uma endemia em franca expansão geográfica.

Dificuldade no diagnóstico

Por Marechal Cândido Rondon ser considerada livre de lesimania e desconsiderada como região epidemiológica do mosquito-palha – responsável por infectar tanto animais quanto humanos após adquirir o vírus em um animal infectado -, a leishmaniose normalmente não é a primeira suspeita caso um animal chegue ao veterinário com algum dos sintomas da doença, tendo em vista que são sinais inespecíficos. “O animal pode ter a doença e ela ser latente, ou seja, não apresentar sinais clínicos, ou pode apresentar desde alterações nas articulações, dificuldades para se locomover, lesões de pele, até diminuição do apetite, emagrecimento mesmo tendo apetite, aumento de linfonodos (ínguas) e anemia”, destaca Aline.

Além da leishmaniose cutânea, que apresenta os sinais citados acima pela veterinária, também já a leishmaniose visceral, que, além de apresentar lesões na pele, acomete os órgãos internos. “A visceral pode acometer baço, rim, coração, entre outras apresentações inespecíficas, que levam a doença a ser confundida com outros problemas”, diz. “Para o veterinário que não está habituado a trabalhar com isso, o diagnóstico pode ser mais demorado porque ele normalmente começará a tratar outras suspeitas que tenham os mesmos sinais clínicos, ao contrário de uma região em que a leishmaniose é comum e diagnosticada diariamente, onde essa será a primeira suspeita”, complementa.

 

Tratamento

O diagnóstico da doença é feito por meio de teste sorológico e, posteriormente, é feito o isolamento do animal para verificação do tipo de leishmaniose: visceral ou cutânea. “A visceral é mais perigosa e é de notificação obrigatória aos veterinários”, enfatiza o médico veterinário Jackson Wolf.

Até pouco tempo, para os animais portadores da leishmaniose, era obrigatória a realização da eutanásia, porém, com a tramitação do projeto de lei nº 2.388/2015 na Câmara dos Deputados, que disciplina o controle da eutanásia de animais portadores de leishmaniose visceral canina, o tutor do animal poderá optar entre eutanasiar o cão ou prosseguir com o tratamento. “Hoje o tratamento gira em torno de R$ 1 mil mensais para um animal de dez quilos, mas tudo vai depender do local que vai tratar, dos exames, então o valor varia de caso para caso”, aponta Wolf. “Quanto mais tempo o tutor deixar a doença progredir e demorar para procurar atendimento veterinário, maior a chance do animal ter que ser eutanasiado”, complementa Aline.

Mesmo sendo proibido, Wolf diz que até pouco tempo o tratamento era realizado em animais com medicamento específico para humanos – o que, segundo ele, não é recomendado, pois pode ocorrer a seleção de parasitas resistentes e atrapalhar o tratamento futuro nos seres humanos. “E como a saúde humana está sempre em primeiro lugar, esses medicamentos humanos não podem ser usados em animais. Agora no Brasil foi lançado um medicamento veterinário para a doença e é o único que pode ser utilizado nos animais”, alerta.

Para os cachorros que são diagnosticados com a leishmaniose, a doença tem tratamento e controle, todavia o animal será portador do Leishmania chagasi para sempre. “Se optar pelo tratamento, o animal se tornará portador para o resto da vida, então após o tratamento tem todo um protocolo a ser seguido, sendo necessário acompanhamento constante, até porque a doença pode acometer órgãos internos de forma irreversível. Também pode ser necessário o tratamento a outras doenças secundárias”, ressalta.

 

Prevenção

A fim de evitar a leishmaniose nos cães, a prevenção está focada no controle do vetor e também no uso de uma coleira repelente, que evita tanto a picada do cachorro sadio, que nunca contraiu a doença, quanto naqueles que possuem leishmaniose, para que não disseminem a doença. “É recomendável usar a coleira porque Foz do Iguaçu é uma cidade com casos frequentes e muito próxima para dizermos que em Marechal Cândido Rondon não há vetor. Se tivemos um cachorro com o diagnóstico fechado no município, resta saber se há o vetor, que demanda de um mapeamento pela Vigilância Sanitária. Caso o vetor exista, esse cachorro pode ter transmitido a doença para outros animais”, destaca Aline.

Wolf expõe que as coleiras repelentes têm eficiência de três a oito meses, já que a durabilidade varia de marca para marca. “Está programado para entrar no mercado óleos repelentes que também podem ser utilizados para repelir o mosquito, mas o melhor custo benefício é da coleira, que gira em torno de R$ 100 a R$ 150 cada”, aponta o médico veterinário.

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