Copagril
Silvana Nardello Nasihgil

Uma hora é preciso olhar para si

Por mais bobo que o coração possa ficar, mesmo assim uma hora ele se cansa. Parece que ele tem um medidor instalado em algum lugar, que uma hora diz: deu, chega de insistir, você já teve muitos sinais de que não há reciprocidade, acabou!

Hora de juntar as coisas, colocar na mala e sair de cena. Ninguém merece de modo algum, sob qualquer pretexto, amar e ficar em segundo, terceiro, décimo plano, dar tudo de si e muitas vezes ir um pouco além, e continuar preterido(a), invisível.

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Uma hora é preciso olhar para si para perceber que se está no lugar errado, com alguém que não merece a nossa intensidade, com quem não quer nada do que temos para dar e também não tem mais nada para nos oferecer. Uma hora a gente precisa se amar acima de tudo e de todos, porque dividir a vida com alguém em qualquer situação está no querer, na conquista, no interesse, no sentir, e não depende de desejos unilaterais.

Mesmo que já tenha sido muito bom, mesmo assim o que vai dentro de cada um é uma incógnita e, quando passa do perfeito para o inaceitável, ao invés de processarmos ficamos incrédulos(as) e, muitas vezes, paralisados(as). É difícil aceitar que algo possa mudar quando se acredita ter feito tudo certo, quando se tem vivido para sustentar uma relação em todos os sentidos, quando nos doamos ao ponto de esquecermos de nós, quando já demos o colo, o coração e oferecemos a vida.

É talvez uma das coisas mais difíceis de assimilar quando já não fazemos mais parte da vida do outro.

Mas precisamos nunca esquecer que um não tem o poder de amar pelos dois. Relações equilibradas e felizes requerem reciprocidade. Não existe unilateralidade nas relações afetivas. Elas precisam de comprometimento, projeto, parceria, compreensão, acolhida, escuta, dos dois… e muito amor! Atitudes muito básicas sem as quais uma relação não poderá sobreviver.

Não dá para estar ao lado de alguém aonde você precisa provar o tempo todo que é suficientemente boa(bom) para ocupar aquele espaço, aonde você busca milhares de detalhes para justificar porque o outro deveria te amar. Não dá pra continuar mendigando atenção e sentimentos que não existem. Não dá para buscar coisas positivas aonde nada tem. Mesmo que doa, não dá pra ficar aonde não há encaixe, aonde não se cabe. A gente precisa prestar atenção nas nossas atitudes quando tentamos ressuscitar sentimentos, porque poderemos parecer palhaços tentando animar uma plateia inexistente.

A gente sempre sabe quando alguém já levou de nós a nossa alma e o nosso coração. A gente sente quando não tem mais nada a ver, a gente sente quando alguém já foi embora, a gente sabe, sabe sim! Mas a gente não quer acreditar. É difícil demais arrumar as malas do coração para partir, pegar um rumo incerto e deixar para trás alguém que dava cor e vida aos nossos dias. Mesmo que a gente saiba, precisamos permitir que se instale em nós a consciência desse saber, nos disponibilizarmos para sermos colocados diante de nós, porque é preciso. Precisamos permitir isso, olhar lá no fundo, buscar o que ainda resta de amor próprio, respirar fundo e dizer: eu mereço ser feliz! Não nascemos para aceitar migalhas, precisamos de alguém inteiro, que olhe para nós e reconheça alguém com quem possam dividir a arte de amar e viver.

 

Silvana Nardello Nasihgil é psicóloga clínica (CRP – 08/21393)

silnn.adv@gmail.com

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