Tarcísio Vanderlinde

A subjetividade do roteiro

O celular, que permite a onipresença pela tela de qualquer canto do planeta, não desestimulou o viajante a estar presencialmente em lugares onde ele nunca tenha estado pessoalmente antes, muito pelo contrário. Sentir o solo na pisada e respirar o ar do lugar continua fazendo diferença para milhões de pessoas.

Se o leitor tirar um tempo, vai perceber que viagens à Terra Santa, por exemplo, assim como para outros lugares do planeta, se adequam a interesses particulares de grupos que para lá se dirigem. No caso da Terra Santa, normalmente a motivação espiritual é que estimula a maior parte das viagens. Mas é curioso perceber que mesmo entre os que se sentem motivados pela crença podem ser percebidas diferenças.

Existem lugares de visita comuns onde praticamente não há divergências se considerado o credo que o peregrino professa. O monte das Oliveiras e o mar da Galileia estão nesta lista. Já a igreja do Santo Sepulcro e o Jardim da Tumba, por serem locais marcados mais pela tradição do que pela pesquisa, são lugares que acabam se excluindo mutuamente.

Os dois lugares reivindicam o local do sepultamento de Jesus, apesar da igreja do Santo Sepulcro ter uma tradição mais antiga. Pesa então a visão teológica do grupo de visitantes. E o guia local muitas vezes acaba também dançando de acordo com a música requerida pelo grupo ou pela liderança que o conduz.  

A ortodoxia do roteiro pode empobrecer uma visita, mas não parece ser motivo suficiente para não visitar a Terra Santa. É preciso ser tolerante com o grupo e estar ciente das informações que podem ser deliberadamente omitidas por guias, sejam eles locais ou que acompanharam os peregrinos desde seus lugares de origem.

Para a maioria das pessoas que visitam a Terra Santa sempre será uma experiência única sentir-se lá pela primeira vez. O desfigurado monte das Oliveiras, transformado hoje num enorme cemitério, continua no mesmo lugar. Quem desce o monte margeando os túmulos vê pela frente os muros da Cidade Santa e as duas mesquitas que se acredita terem tomado o lugar do templo judaico destruído pelo exército romano no ano 70 de nossa era.

A vista de Jerusalém a partir do monte das Oliveiras por si só já vale o empenho em fazer a viagem. A experiência é normalmente compartilhada por todos os grupos que para lá se dirigem independente da ênfase da sua fé.

 

O autor é professor da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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