Copagril
Elio Migliorança

DEBOCHE I

Era uma quarta-feira que parecia terminar como todas as demais depois de um dia de trabalho. A tarde caía, o sol se despedia lentamente e a natureza sumia no meio da névoa cinzenta de uma tarde de outono. De repente um “rabinho de notícia” na TV fala do debate e possível aprovação do projeto de decreto legislativo alterando o Tratado de Itaipu e aumentando o valor pago ao vizinho país. Acessei o canal da TV Câmara e acompanhei os debates até o início da madrugada. Maravilhosa tecnologia que permite que se proclame sobre os telhados aquilo que antigamente era feito às escondidas e jamais chegava ao conhecimento do eleitor. Alternavam-se na tribuna deputados da situação e da oposição com suas argumentações. Preferências à parte, cada um tem as suas, o que pude constatar nas argumentações foi que alguns não tinham argumentos. E não tendo argumento, aproveitavam para preencher o espaço com “abobrinhas”. Mas o que chamava a atenção era o tom irônico e de deboche com que alguns falavam dos recursos e riquezas que o Brasil possui e que o valor a ser pago não nos fará falta. Alguns proclamaram que era uma promessa de campanha do presidente Lugo e que devíamos fazer isto para evitar a instabilidade política no vizinho país. Alguém afirmou que esta é uma dívida do Brasil proveniente dos prejuízos causados pela guerra do Paraguai. Afirmação digna de um jegue. Neste momento tive a nítida impressão de estar assistindo um debate entre extraterrestres. Sei que o tema é polêmico, mas sejamos racionais. Não vamos perder o foco. Itaipu foi construída pelos dois países, mas quem financiou e pagou a conta fomos nós. Eles entraram com o barranco do lado de lá, metade da água do rio e nós fizemos o restante. Dizer que o tratado é injusto com o Paraguai será menosprezar a inteligência dos diplomatas que na época elaboraram e assinaram o tratado aprovado pelos governos de lá e de cá.
De redação perfeita, assinado em abril de 1973, foi cumprido até esta data pelos dois países, sem nunca ter sido questionado no Tribunal Internacional, fórum adequado para debater tratados considerados lesivos a uma das partes. Se assim foi, porque depois de tantos anos o tema veio à superfície da discussão política?
Esta parte ninguém conta. Ela não é oficial. Só comentário de bastidores. O então secretário de Comunicação de Requião, Airton Pisseti, foi um dos marqueteiros do então candidato a presidente Fernando Lugo. Fazia parte da estratégia de campanha criar um fato novo para fazer tremer o processo eleitoral e inflamar o povo. Nada melhor que atacar o imperialismo brasileiro, vizinho gigante opressor e explorador, causador da pobreza do povo irmão paraguaio. E prometer que, uma vez eleito, exigiria uma revisão do Tratado e aumento do valor pago pela energia de Itaipu. Mas… para garantir que no futuro Lugo não seria tachado de mentiroso, precisavam do aval brasileiro. Uma missão secreta consultou o então presidente Lula (ele de novo), que prometeu defender a ideia. Enquanto estávamos “deitados eternamente em berço esplêndido”, nosso futuro estava sendo vendido. Os prós e contras, réplica e tréplica serão analisados no artigo da próxima quarta-feira (20).

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