Tarcísio Vanderlinde

No cenário bíblico da guerra dos seis dias

Um livro volumoso não é garantia de se ter uma visão adequada sobre uma guerra. Para complicar, o historiador Steven Pressfield, autor do livro que consultei, de pronto avisa que não se trata de um livro imparcial, dada sua ascendência judaica. Decidiu escrever sobre seu povo, mas disse que procurou fazer a coisa de forma correta.

O livro é esclarecedor sobre diversas questões relevantes que se passaram nos bastidores da guerra. Em minha avaliação, acredito tratar-se de um texto bastante equilibrado. Registra atos de heroísmo e de covardia em ambos os lados do conflito. Surpreende com depoimentos nos quais o inimigo é enaltecido. Descreve cenas que, em muitos casos, parecem ter saído da Bíblia, entretanto, acredito que é preciso fazer a leitura a contrapelo e com critério.

O texto traz centenas de declarações dos veteranos da guerra, hoje setentões e oitentões. Os já falecidos tiveram depoimentos anotados a partir de biografias e outras obras escritas anteriormente. O autor praticamente não se posiciona sobre os testemunhos, embora admita ter editado muitos deles. Ele deixa que o leitor viaje pelo palco da guerra a partir das falas e tire suas próprias conclusões.

É curioso ler um livro sobre uma guerra identificado com cenários que pude visitar pessoalmente no ano de 2014: Sinai, Jerusalém e Golan. Chega a ser inacreditável ter contemplado aqueles cenários e imaginar que durante seis dias do mês de junho de 1967 a situação estava tensa, muito diferente, e possivelmente com raros peregrinos se arriscando a visitar os lugares santos.

Eu tinha 13 anos quando ouvi falar que Israel havia entrado em guerra contra o Egito e depois contra a Síria e a Jordânia. Fazia o segundo ano do ginásio fora de casa. Falava-se que a situação poderia provocar a Terceira Guerra Mundial. Fiquei sabendo da guerra com a idade que os legisladores no Brasil entenderam ser uma fase muito precoce para saber o que é certo e errado. Curiosamente era a idade que ainda hoje na cultura judaica os meninos passam pelo Bar Mitzva, cerimônia que marca a passagem para a maturidade. Outras culturas também têm a iniciação por volta dessa idade.

A televisão era uma miragem no Oeste do Paraná, mas naquele ano chegou às minhas mãos uma revista “Manchete”. Nela pude ler alguns lances sobre a guerra e visualizar uma imagem do general Moshe Dayan, o principal estrategista da guerra, e que usava um tapa-olho decorrente de um ferimento em conflito quando ainda jovem.

A façanha israelense que praticamente decidiu os destinos da guerra em uma semana fora treinada durante os anos que se sucederam ao conflito de 1956, no Sinai. Naquela campanha o governo egípcio fora humilhado e era dado como certo que viria a revanche. Israel estava com o desenho da guerra preparado dois anos antes de se iniciar efetivamente o conflito. Inspirado em Gedeão, dos tempos bíblicos, o planejamento e a surpresa foram estratégicos para enfrentar um inimigo belicamente melhor preparado.

 

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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