Elio Migliorança

O DIVÓRCIO

O povo cansou de ser bovinamente conduzido. A garganta da nação se abriu e de lá saiu um grito ensurdecedor. Parecia algo mágico. As pessoas surgiam de todos os cantos como se brotassem do chão e logo uma multidão estava reunida, e qual um tsunami cívico foi se movimentando, talvez sem saber exatamente para onde, mas na cabeça de todos havia uma certeza: do jeito que as coisas estão não podem mais ficar. É preciso avançar e fazer cumprir o art.1º da Constituição Federal, onde diz: todo o poder emana do povo, que o exerce por meio de representantes eleitos ou diretamente nos termos desta Constituição.
Os políticos vivem em Brasília como se estivessem numa “ilha da fantasia”, descolados da realidade do país, e isso levou a multidão dos manifestantes deste movimento sem nome, mas com dimensões continentais, a decretar o “divórcio” com todos os políticos. Parecia um sonho, mas os políticos estavam proibidos de participar das manifestações. Alguns imbecis resolveram aparecer com bandeiras de partidos políticos, que logo foram arrancadas das mãos dos portadores e queimadas ali mesmo. O Congresso Nacional estava inativo, os políticos imobilizados e encurralados dentro dos parlamentos, onde tantas decisões foram tomadas em benefício próprio e em prejuízo da população. Olhavam assustados pelas frestas das cortinas aquela multidão que não parava de crescer, porque a maioria estava onde sempre esteve, longe do povo. De um momento para outro foram alvo de uma cassação indireta, sem os morosos meandros da justiça e da política, pois o poder dos representantes foi retomado e passou a ser exercido diretamente pelo povo. O divórcio estava declarado porque os políticos, ao invés de casar com a alma do povo, viraram-lhe as costas e, enclausurados nos salões atapetados dos palácios, casaram com seus interesses e os interesses de seus financiadores de campanha. A esperança do passado deu lugar à certeza do presente, de que as promessas eram falsas e a corrupção verdadeira e maior a cada dia. O Executivo transformou o governo numa casa onde os adversários de ontem foram chamados a ocupar cargos e a servir ao único interesse de manter o poder a qualquer custo.
Tantas promessas políticas não cumpridas fizeram despertar um sentimento de frustração e raiva que se disseminou pelas redes sociais, o democrático e eficiente meio de comunicação que serviu como instrumento de mobilização. Redes sociais que, sem controle governamental e sem patrocínio do dinheiro público, são o espaço onde todos têm vez e voz. Talvez seja o começo do fim da era da manipulação e controle das massas, que sempre se fez comprando a peso de ouro grandes redes de comunicação. Com esta “cassação branca”, por que não eleger uma “Constituinte exclusiva”, formada por representantes das classes e entidades organizadas do país, que começaria fazendo uma reforma política decente, reformaria a Constituição, com direitos e deveres iguais para todos? E em seguida seriam convocadas eleições gerais em todos os níveis e com isso o Brasil começaria um novo tempo, com caras novas e a possibilidade de um futuro melhor para todos.

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