Tarcísio Vanderlinde

Os amigos de Mohe Dayan

Moshe Dayan tinha clareza de que a instabilidade na terra onde ele e seus amigos árabes nasceram, como também ocorria em outros lugares do planeta, era decorrente do colonialismo levado a termo pelas metrópoles europeias. A atitude esquizofrênica da Inglaterra e da França em relação aos Estados que hoje formam o Oriente Médio é notória e pode ser confirmada em diversos relatos da história.

Mais do que um homem de guerra, o texto que consultei revela em Dayan um homem de paz. Dayan foi capaz de estender a mão a inimigos drusos que assassinaram seu irmão e os convidou a morar em Israel. Cresceu junto a pastores beduínos, araram a terra juntos, plantaram e sentaram lado a lado nas valas para comer o almoço e dançaram juntos no seu casamento. Dayan via os árabes, particularmente os beduínos, como figuras bíblicas, e era assim que convivia com eles.

Dayan caracteriza seus vizinhos árabes: “Ninguém é melhor amigo do que ele. Ninguém defenderá seu solo com maior coragem. Para o árabe, a honra é tudo. Ele dará seu sangue pelo seu clã ou por sua tribo, mas também o fará pelo estranho que deixou passar pela sua porta. Ninguém ri ou ama seus filhos com tamanha ternura como um árabe, nem dança e adora Deus com tanta devoção, e ninguém é mais compassivo com os pobres e desvalidos”.

Não tenho problemas em concordar com Dayan após ter sido bem recebido por árabes quando visitei a Terra Santa em 2014. Entre tantas gentilezas, teria sido um tanto difícil subir o monte Sinai de madrugada sem a companhia e a ajuda de beduínos. Eles mostraram o caminho e me deram segurança num lugar que nunca havia pisado antes. Mas o que aconteceu então para chegar à situação das sangrentas guerras no século XX?

Antecipando-se ao que os críticos da globalização econômica diriam alguns anos mais tarde, Dayan já procurara responder: “O mundo moderno, no qual os filhos de Ismael ficaram para trás e se tornaram um povo atrasado, é um vergonhoso pesadelo do qual o bravo árabe não consegue despertar. Ele é a fonte desse ódio violento”.

A atitude subserviente do rei Hussein a Gamal Abdel Nasser, presidente do Egito, para quem não havia lugar para um estado judeu no Oriente Médio, mudou a mente de Dayan e os rumos da guerra, principalmente em relação a Jerusalém. Os paraquedistas do exército de Israel entraram pela Porta dos Leões para controlar a cidade velha de Jerusalém e tomar posse do ícone histórico mais precioso para os judeus nos dois últimos milênios de diáspora e exílio: o Muro das Lamentações.

Yael Dayan, filha de Moshe Dayan, ao ver o muro pela primeira vez assim o descreveu: “O muro era um muro. Blocos de pedra cinza, numa escala monumental e adoravelmente antigos, com ramos de hissopo brotando no meio das fissuras”. Contudo, o símbolo, vestígio do templo judaico desaparecido, é certamente muito mais do que pôde descrever a poeta.

 

Tarcísio Vanderlinde, professor em Nova Santa Rosa

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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