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Tarcísio Vanderlinde

Para tocar o coração da Terra

Por muitos anos planejei uma viagem à Terra Santa. Qual não foi minha surpresa em descobrir um clássico de Érico Veríssimo decorrente de sua aventura por aquele território. Era o ano de 1966, e naquele momento Israel estava completando 18 anos de independência. Dois dos principais conflitos entre Israel e seus vizinhos ainda estariam por acontecer. O primeiro ocorreria em 1967, conhecido como a “Guerra dos seis dias”. Seis anos depois, em 1973, viria a “Guerra do yom kippur”.

Descontando a agenda oficial cumprida pelo escritor durante sua estadia naquele país, ele e esposa se hospedaram em alguns kibutzim, passaram pela Galileia, deserto da Judeia e subiram a pé a Fortaleza de Massada às margens do mar Morto. Parte de Jerusalém, onde se situa o Muro das Lamentações, naquele momento estava sob controle da Jordânia. Observar, só de longe. Da expedição, Veríssimo publicou o livro “Israel em Abril”.

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Meio século depois, quando enfim consegui pôr o pé naquela terra, muita coisa parecia ter mudado, outras nem tanto. Ao meu ver, o Estado de Israel tem hoje um curso irreversível, mas há questões pendentes. Veríssimo já havia observado que questões religiosas em Israel tendem a misturar-se com política e economia e a ter repercussões em todo o mundo.

Ao avaliar sua viagem, Veríssimo escreveu: “Israel é talvez a mais fascinante e admirável experiência humana de nosso tempo”. Evidentemente, esta pode não ser uma conclusão consensual. Quase sempre parciais, cada viajante tira suas próprias conclusões ao visitar aquela terra disputada por milênios.

Veríssimo tinha grande curiosidade em conhecer kibutzim, espécie de fazendas coletivas que começaram a se instalar em Israel ainda no início do século XX. Ele queria saber como era a experiência de se produzir compartilhadamente. Dois kibutzim mereceram destaque no texto de Veríssimo. Perto da Faixa de Gaza se hospedaram no “kibutz dos brasileiros”, assim chamado decorrente do grande número de judeus que emigraram do Brasil para lá. O outro foi o “Jardim de Samuel”, situado a meio caminho entre as cidades de Tel Aviv e Haifa, mais ao Norte de Israel.

Das conversas que teve no “Jardim de Samuel”, Veríssimo retirou a essência para discutir a complexa história do surgimento dos kibutzim em algumas regiões basicamente desérticas e inabitadas de Israel antes de sua independência: “Todas essas comunidades rurais israelenses têm um denominador comum, a saber: são principalmente agrícolas e funcionam dentro dum espírito sionista, coletivista e cooperativista. Diferem umas das outras na idade, no tamanho, no grau de prosperidade, na orientação política e religiosa e um pouco na diversificação de seus produtos”.

Há 50 anos, ao indagar um kibutznikim do “Jardim de Samuel” sobre questões voltadas à sociedade de consumo, este respondeu a Veríssimo: “Não somos uma sociedade fechada e escapista. Não estamos aqui para fugir ao mundo, mas, sim, para tocar mais profundamente o coração da terra e da vida”.

Meio século depois da visita de Veríssimo pode-se constatar que a economia dos kibutzim tem hoje uma participação modesta no PIB de Israel. Contudo, se o deserto em Israel reverdece, se deve em grande parte ao resultado do trabalho realizado nos kibutzim. A tecnologia de irrigação por gotejamento foi inventada numa dessas fazendas e acabou sendo uma bênção para muitas regiões áridas do planeta, inclusive para o Brasil.

 

Professor na Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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