Tarcísio Vanderlinde

Retrato de família

A metáfora do “retrato de família” foi sugerida pelo escritor Francis Edward Peters (1927-2020), um dos maiores experts em história das religiões do Oriente Médio, com o intuito de analisar as três grandes fés monoteístas da atualidade. Um dos textos mais conhecidos do autor intitula-se “Os monoteístas”.

A figura do “retrato de família” pode ser apropriada quando analisada a intensa circularidade presente nos livros que orientam o cotidiano de judeus, cristãos e muçulmanos. Há muito mais coisas em comum entre os três grupos monoteístas, ou os “povos do livro”, do que um religioso que nunca tenha saído de sua trincheira possa imaginar.

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O autor enfatiza o peso das controvérsias, tradição e oralidade presente nos três ramos monoteístas. O poder das crenças transmitidas oralmente no interior dos três grupos em muitos casos acaba tendo uma força maior do que os próprios textos-base: a Torá, a Bíblia e o Alcorão.

Na visão do autor, algumas questões relacionadas à ideia de “paraíso” ou “final dos tempos”, por exemplo, ainda estariam inconclusas em termos de sistematização nos três grupos. Chega a surpreender, por exemplo, os resultados do estudo que mostra a grande diversidade de pensamentos entre os próprios judeus que se consideram ortodoxos.

Nem entre os judeus considerados ortodoxos, e que costumam aparecer com aquelas roupas típicas, acompanhadas do inseparável chapéu de cor preta, pensa-se teologicamente da mesma forma.

Imagens divulgadas pela mídia durante o conflito de 2014 ocorrido entre o exército de Israel e o grupo religioso que domina politicamente o território de Gaza mostram grupos de judeus ortodoxos condenando o sionismo e defendendo convivência pacífica entre eles e muçulmanos.

Por outro lado, na Israel de nossos tempos a modernidade foi se adaptando para não afrontar costumes milenares. Um dos casos mais curiosos, e que chama atenção ao visitante, é o shabat elevator, que durante o período do shabat vai parando automaticamente em cada andar sem exigir que o judeu religioso tenha que apertar o botão e com isso desrespeitar a lei.

A leitura atenta dos dois volumes que compõem a obra de Peters pode levar o leitor a analisar com mais cuidado o retrato de família proposto pelo autor. Ao pisar no território que motivou Peters a criar sua metáfora, a situação pode se apresentar ainda mais complexa do que aquela imaginada pelo autor.

Há uma tensão social latente, praticamente incontrolável, que pode inesperadamente explodir a qualquer momento em um novo conflito. A convivência em família naquele lugar é de fato muito difícil.

 

O autor é professor sênior da Unioeste

tarcisiovanderlinde@gmail.com

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