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Tarcísio Vanderlinde

TUDO ACABA EM ESCARAMUÇA NA FRONTEIRA

É corriqueiro ouvir que se vive hoje num mundo sem fronteiras, situação que, obviamente, não passa de uma construção ideológica. No ano de 2011, integrando um grupo de professores e estudantes, visitei o Deserto do Atacama, no Chile. Foi um momento para sentir como a fronteira é ainda uma forte realidade, mesmo entre países onde vigoram acordos comerciais como é o caso do Brasil e da Argentina. O grupo ficou impactado com o excesso de burocracia nas passagens das alfândegas. Ficou evidente que as facilidades de circulação são para mercadorias e não para pessoas. Para estas, as fronteiras podem se mostrar desumanas, com pessoas sendo humilhadas, sofrendo distúrbios e sem ter acesso a um banheiro, além de se sujeitar a uma espera que pode demorar horas. Contudo, as fronteiras podem se mostrar ainda mais cruéis.

Apesar dos festejos em grande pompa dos 25 anos da queda do Muro de Berlim, no mundo supostamente globalizado, muros e barreiras físicas continuam em construção nas fronteiras para evitar o passeio de indesejáveis. É emblemática a barreira para o passeio de indesejáveis na fronteira entre o México e os Estados Unidos. No Oriente Médio, observei um muro mais alto e mais longo do que extinto Muro de Berlim a serpentear entre os territórios que supostamente pertencem a Israel e Cisjordânia. Na fronteira Oeste do Estado do Paraná, no Brasil, os indígenas guaranis costumam ser vistos como elementos perturbadores por muitas pessoas.

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O mundo globalizado tem liberado contingentes enormes de pessoas que não são mais requeridos pela economia. Tornaram-se redundantes. Milhares delas arriscam suas vidas tentando atravessar alguma fronteira com a esperança de encontrar mais humanidade ou melhorar seu jeito de viver. O mundo globalizado parece ter liberado a barbárie e tem se tornado menos hospitaleiro para as pessoas. Para as pessoas “globais”, a fronteira pode ser um detalhe corriqueiro, mas para as pessoas “locais”, aquelas que se mobilizam pouco, ou quando se mobilizam “atrapalham” a economia, ela continua sendo dolorosa. Barbárie e oportunidades parecem se mesclar nas fronteiras contemporâneas.

Luís Fernando Veríssimo (1996) lembra que no tempo da Guerra Fria havia as fronteiras ideológicas que atravessavam países e continentes, separando o “mundo livre” do outro e dos simpatizantes do outro. Foi para defender a fronteira ideológica na América Latina que a política de contra insurgência americana teria patrocinado os governos militares, treinado torturadores e zelado pelas nossas respectivas seguranças nacionais. A não ser que se visitasse um país comunista ou frequentasse algum aparelho clandestino, dificilmente se cruzava a fronteira ideológica.

Quando a Guerra Fria amainou e as fronteiras ideológicas começaram a desaparecer, nos vimos livres dos generais, mas dentro de outra macrogeografia, a das fronteiras econômicas. E essas são visíveis demais. Separam bairros, dividem ruas, são fluídas e ondulantes – e você as cruza todos os dias. A grande questão do início do século é como defender seu perímetro pessoal da miséria impaciente e predadora. As chacinas no campo e na cidade, a liberdade de pequenos tiranos de uniforme para serem arbitrariamente violentos, até as condições subumanas das nossas cadeias, tudo é permitido porque não se está apenas mantendo a ordem, está-se defendendo uma pátria ameaçada, a pátria do privilégio e da insensibilidade social.

O texto de Veríssimo está a completar duas décadas, mas é surpreendentemente atual e, segundo ele, tudo, no fim, acaba sendo sempre escaramuça na fronteira.

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