Arno Kunzler

Encanto na lavoura…

A última década foi de fartura no campo, especialmente para os plantadores de soja.

Nossa região mais uma vez foi abençoada com chuvas e clima favorável para que os produtores de soja e milho tivessem o melhor rendimento imaginável.

Exceto em algumas localidades, onde de fato a chuva faltou, o restante da região está colhendo mais uma super safra de soja, algo que vem se repetindo há bastante tempo.

E para melhorar, não só a colheita ajuda; os preços também.

Os produtores de soja estão em lua de mel, colhendo bem e vendendo melhor ainda.

Já os produtores de milho não podem comemorar os dois lados da moeda. Colhem bem, mas quem precisa vender agora não tem o preço que esperava.

Mesmo assim, a produtividade, cada vez maior, garante uma boa rentabilidade para ambos.

O agronegócio brasileiro continua embalado.

Ontem (06) começou o principal evento técnico do setor, no Paraná. O Show Rural Coopavel, mesmo com as cooperativas, algumas, sentindo a dificuldade da crise econômica, vem superando recordes.

Não se pode dizer que o futuro será assim, até porque não temos irrigação no Brasil e dependemos única e exclusivamente do tempo.

São Pedro está mandando muito bem, obrigado. Todavia, a super safra de soja nem sempre é percebida no comércio como as demais culturas.

Soja, ao contrário do milho, pode ser estocado por anos praticamente sem custos e sem perdas.

Soja, ao contrário do leite, do frango e do suíno, pode esperar no armazém.

Quem colhe bastante tem o hábito de guardar produto e assim o efeito positivo da roda da economia acaba não sendo acionada.

É simples, um produtor de soja que colhe 12 mil sacas e consegue não vender nada, para a economia da cidade é o mesmo como se não tivesse colhido.

Por isso, não devemos nos entusiasmar com o efeito econômico da safra. Ela gera bem-estar aos produtores, gera alívio para quem tem contas a pagar ou a receber do produtor, mas se for estocada, é apenas uma riqueza para o futuro, parecido com uma reserva de petróleo inexplorada.

Serve de garantia, mas não movimenta a economia.

É bom que os comerciantes e demais vendedores levem isso em consideração quando projetam seus negócios.

Super safra de soja, quando a grande maioria dos produtores está capitalizada, pode não ser o que a maioria imagina.

E o efeito da venda da safra de soja é ainda menos interessante quando o produtor vende e compra um lote urbano para especular.

Esse negócio acaba inflacionando os loteamentos periféricos e criando regiões urbanas pouco habitadas e sem nenhum desenvolvimento.

A expansão urbana das cidades atende muito mais a expectativa de negócios desse tipo do que a necessidade de fato por mais moradias. E isso tem influência negativa nas cidades.

Portanto, a super safra de soja estocada ou destinada a comprar lotes baldios nas periferias das cidades gera uma falsa ideia de desenvolvimento.

O mercado de imóveis se aquece, os perímetros urbanos se expandem e em muitas regiões esses terrenos comprados para especular preços servem apenas para cultivar inço, mato e animais peçonhentos.

E se não houver um novo ciclo de crescimento acentuado, também não haverá a valorização esperada.

Fica aqui uma humilde sugestão para quem colheu e deseja vender esta ou safras anteriores: se não tiver melhorias na propriedade para fazer, nem deseja ou não precisa máquinas e também não quer gastar o dinheiro com bens de consumo, invista em imóveis já edificados ou compre terrenos e construa.

Faz bem para as cidades e, ao invés de despesa mensal para manutenção de terrenos baldios e mal-estar para os vizinhos, gera aluguel como renda.

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