Ford/Abradif/Rodovel Ranger
Elio Migliorança

Papo de fila

Na rotina de uma consulta médica tive um dia de reflexão sobre o “jeitinho brasileiro” e como determinados direitos podem ser distorcidos e criar ressentimentos entre pessoas da mesma comunidade. Estou em Cascavel e após a consulta médica aproveito o intervalo para pagar boletos bancários numa agência local.

A inexistência de código de barras me obriga a enfrentar a fila do caixa. Fila única com senha eletrônica, estamos bem acomodados e três caixas atendem os presentes. Na emissão da senha você escolhe entre o atendimento normal ou o preferencial que é reservado para idosos, gestantes, mães com bebê no colo e pessoas com necessidades especiais. Como a fila é única, as pessoas com senha preferencial são chamadas antes daqueles que possuem senha normal. Chegam várias pessoas que usam senha preferencial, a fila para e começa um murmúrio de descontentamento. Algumas pessoas estão inquietas e com os nervos à “flor da pele”.

Se uma mãe com criança no colo, uma pessoa idosa caminhando com dificuldade ou uma pessoa fragilizada por uma doença são atendidos antes, todos compreendem e aceitam aguardar um pouco mais na fila. Talvez um dia também tenhamos necessidade da caridade dos outros. Mas o que dizer quando entra um cidadão vestindo um belo agasalho e tênis, porte atlético e que, ao que tudo indica, fazia uma bela caminhada quando fez valer o direito de seus 62 anos, solicitando atendimento prioritário. Aí a sala quase pegou fogo.

Um trabalhador que estava no horário de almoço de uma hora e precisava do banco questionou o “fura fila” e foi aí que soubemos sua idade. No bate-boca descobri que tal direito foi aprovado pela lei 10.048 de novembro de 2000, cuja lei também incluiu o atendimento prioritário para obesos. Dependendo do lugar onde a gente mora e se isso for cumprido, estamos ferrados.

Quando o atleta sexagenário foi atendido e sumiu no calçadão da Avenida Brasil e parecia que o clima voltava ao normal, entra um senhor mais velho que o anterior, pastinha debaixo do braço, saca uma senha preferencial sendo logo chamado no painel eletrônico. Na hora em que da pasta saiu um pacote de documentos e boletos e descobriu-se que o dito cujo era “office boy” de um escritório, o circo quase pegou fogo e a segurança precisou intervir. Como faço parte da galera que já está do lado de lá dos 60 anos, posso afirmar sem medo de errar que a lei é justa quando defende o idoso doente, o fragilizado pela idade, uma mãe com bebê de colo ou uma grávida no final da gravidez, mas os aposentados ou pessoas com saúde que abusam deste direito estão prestando um desserviço àqueles que de fato precisam de proteção. Cria-se com isso uma antipatia e rejeição aos idosos, os quais, uma vez aposentados, possuem mais tempo e podem aproveitar os horários bancários menos concorridos.

Muitos trabalhadores estão na correria o dia inteiro e aproveitam aquele curto espaço de almoço para resolver suas pendências, almoçar e voltar correndo ao trabalho. Não esqueçamos que são essas pessoas que contribuem para que continue havendo recursos para pagar as aposentadorias.

Numa fila, apenas vendo e ouvindo, tive uma preciosa aula que me ensinou mais um pouco sobre a solidariedade e a mesquinharia humana e a diferença entre usar ou abusar de um direito.

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