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Pôncio Pilatos

Pôncio Pilatos foi governador da província romana da Judeia entre os anos 26 e 36 d.C, além de ter sido o juiz que condenou Jesus Cristo à morte de cruz, apesar de não ter encontrado nele culpa alguma como relatado na sagrada escritura.

Na sessão do Tribunal Superior Eleitoral (TSE) em que foi absolvida a chapa Dilma/Temer, um dos ministros justificou seu voto a favor da absolvição fazendo menção a Pilatos e acusando-o de ter condenado Jesus Cristo porque ouviu a voz do povo, e como consequência ele perdeu o controle, não pôde conter a fúria do povo e aí Jesus foi condenado à morte.

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Após ouvir isso, cheguei à conclusão que o ministro Napoleão Nunes Maia não podia ter invocado melhor patrono para fundamentar seu voto, visto que ambos possuem muitas características em comum. Pôncio Pilatos declarou estar convicto da inocência de Jesus, mas acovardou-se quando lhe gritaram que se o soltasse não seria amigo de César, o imperador romano, e diante disso decidiu condená-lo. Já o ministro Napoleão estava convencido da culpa da chapa Dilma/Temer diante das provas citadas no bem elaborado voto do relator do processo, o ministro Herman Benjamim, mas ficou com medo de enfrentar a ira daqueles que o nomearam para o cargo de juiz do STJ, bem como a ira dos poderosos que administram o governo, pois é dali que pode sair no futuro uma indicação para um cargo num tribunal superior.

Pilatos condenou Jesus mesmo sem provas, Napoleão absolveu a chapa mesmo com excesso de provas. Em sua fala, Napoleão Maia criticou duramente o instrumento da delação premiada, dizendo: “se isto não terminar, o final não será bom. Todos nós estamos sujeitos ao alcance dessas pessoas, os delatores. O sujeito fica indefeso diante disso, deve amargurar isso no coração”.

O que o senhor ministro não disse é que até hoje as delações investigadas foram comprovadas, e aí está o problema. Como ele já foi citado em algumas, corre contra o tempo para impedir que a delação seja comprovada. As delações foram o instrumento mais eficaz para identificar os criminosos que agiam nas sombras desde os tempos do império, mas nunca foram desmascarados graças a uma cumplicidade silenciosa onde criminoso protegia bandido.

Quando alguns mafiosos viram-se atrás das grades resolveram abrir o bico, já que seus comparsas continuavam livres, leves e soltos. Há casos da admissão da culpa mesmo antes da delação. Foi o que ocorreu com o presidente Michel Temer que, diante da iminência da prisão do ex-deputado Rodrigo Rocha Loures, declarou ter certeza de que Rocha Loures não o denunciaria.

Ora, declarar isso significa reconhecer que existe culpa, pois se inocente fosse diria que não existia nada para ser denunciado. Se para o Brasil era melhor ou pior que a chapa Dilma/Temer fosse cassada, não é o mais importante. Importante era que se fizesse justiça, isto é, tendo sido comprovada a fraude, a cassação era a única alternativa caso o TSE quisesse de fato provar à sociedade que é uma instituição séria e que age a favor da lei e da ordem.

A frase do ano, na minha opinião, é a do ministro relator Herman Benjamim, que revoltado com a absolvição da chapa declarou: “Como juiz, eu rejeito o papel de coveiro de prova viva. Posso até participar do velório, mas não carrego o caixão”, ironizou.

 

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