Copagril
Arno Kunzler

TIRO NO PRÓPRIO PÉ

É claro que a sociedade precisa primar todos os dias e a cada instante pela segurança das pessoas.

O mais importante sempre é a vida. Logo, se justificam todas as iniciativas e até os exageros cometidos, que visam preservar a segurança e a integridade física das pessoas.

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Ocorre que no Brasil – talvez seja assim também em outros lugares do mundo, mas como não conheço a realidade dos outros países, vou me limitar a esta análise – nossos legisladores estão criando tantas dificuldades que promover eventos passou a ser um negócio de alto risco e aos poucos muitos deles ficarão inviabilizados.

Primeiro vem a parte burocrática, que já é pesaroso para quem está à frente de uma entidade, trabalhando como voluntário, muitas vezes em favor de causas nobres.

Depois vêm os custos. Cada papel, cada providência, cada exigência imposta tem um custo e as vezes desproporcional com o tamanho do evento que se pretende realizar.

Além disso, todas essas providências não eximem o responsável pelo evento, por eventuais danos causados a algum frequentador do evento, seja por culpa e responsabilidade do próprio, ou seja por algum outro cidadão frequentador do local.

Quer dizer, o organizador de qualquer evento corre sempre o risco de algum acidente e como consequência disso pode ser responsabilizado civil e criminalmente.

Quem terá motivação para promover eventos diante de tantas exigências legais e diante de tamanha responsabilidade?

Aos poucos vamos esvaziando os locais onde num passado recente eram promovidos eventos para diversão e entretenimento da sociedade.

As festas, em que as pessoas brincavam inocentemente com suas famílias, hoje já tem limitações impostas pela legislação, cuja validade no mínimo pode ser questionada.

São tantas proibições que aos poucos vai se tornando impossível uma entidade sem fins lucrativos, ou cujo objetivo é arrecadar dinheiro para sua subsistência, ter condições de cumpri-las.

Para os burocratas que lidam com leis, isso parece fácil, mas para um homem trabalhador do bairro, que preside uma associação, ou um agricultor, isso é complicado.

Aí vem a prefeitura, quando a sociedade precisa organizar um evento, apela ao Poder Público.

Só que não, o Poder Público não pode mais gastar dinheiro com festas, com eventos etc… mesmo que seja oferecendo médico, ambulância, socorristas entre outros.

Por outro lado, se todos precisam das prefeituras para ajudar nisso, os recursos também vão minguar e as prefeituras vão acabar tendo que se retirar da organização e do suporte para realização de festas populares em seus municípios.

Pode se questionar: almoços de igreja, escola, time de futebol ou algo parecido são realmente eventos importantes para entretenimento das famílias?

Mas o que as famílias fazem nos fins de semana, se não tiverem mais eventos em suas comunidades?

Passam sábado à noite e o domingo na frente da TV, passam o dia em casa navegando na internet, conversando pelo WhatsApp?

Será que esse é o futuro que nos reserva?

Ou será que precisamos rever alguns conceitos, diminuir as exigências legais, os custos dos papéis, não achar que tudo é incentivo à bebedeira, ao vício… que qualquer coisa que pode oferecer risco sirva de motivo para incriminar um voluntário e inocente organizador de evento?

O padre Solano Tambosi, da Paróquia Sagrado Coração de Jesus, disse em uma missa recentemente na presença do novo comandante dos bombeiros que houve um tempo que ele achava que os fiéis tivessem que assistir à missa na praça, tamanhas eram as exigências apresentadas aos templos religiosos pelo antigo comandante.

Assim como os bombeiros flexibilizaram suas exigências, outras questões precisam ser revistas para facilitar a vida das comunidades, das pessoas.

E isso não vai aumentar a insegurança, pelo contrário, as pessoas estão mais conscientes e mais preocupadas com a segurança, mas não podemos inibir a diversão, o entretenimento.

Risco de um acidente todos corremos em qualquer lugar. Mas é importante que as autoridades reconheçam os exageros que foram incluídos nas nossas exigências para realiza- ção de pequenos eventos.

 

* O autor é jornalista e diretor do Jornal O Presente

arno@opresente.com.br

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